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A Festa do Vee

Por: Dafne Spolti/OPAN
Povo Deni do rio Xeru realiza a esperada pesca de pirarucu com apoio dos Paumari e faz grande festa para comemorar.

Poaravi Deni (esq.) e Francisco Paumari (dir.). Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Itamarati (AM) – A manhã no acampamento à beira do rio Xeruã estava iluminada dia 24 de agosto. O sol revelava as cores dos mosquiteiros, dava contorno à fumaça da fogueira e das canecas de café, mostrava os tons de verde da floresta. Também fazia brilhar o vermelho de urucum que os Deni usavam para pintar o rosto. O dia, especial, exigia uma preparação à altura. Com todos prontos, eles se dividiram em canoas, junto aos indígenas Paumari André e Francisco, à equipe da OPAN, além de parentes Kanamari e subiram um pequeno trecho rio, na bacia do Médio Juruá, Amazonas, até o lago em que fariam sua primeira pesca experimental de pirarucu, seguindo as diretrizes do manejo.

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Poaravi Makhuvi Deni, da aldeia Morada Nova, coordenador geral do manejo de pirarucu, ia levando uma das turmas no primeiro dia de pesca, vestindo a camiseta do projeto “Arapaima: redes produtivas”, que viabiliza o apoio da OPAN ao trabalho, com recursos do Fundo Amazônia. Chegando ao lago, ele, que há um ano defendia a realização da pesca, segurava firme o arpão, de olho em cada movimento da água. Mas foi com a malhadeira – de tamanho apropriado para não capturar peixes menores – que eles pegaram dez peixes, nos dois dias de trabalho.

Cada pirarucu foi levado para a base de tratamento construída por eles no local do acampamento. No caminho, os carregadores, como Hihi Deni, da aldeia Itaúba, jogavam água no peixe para manter sua temperatura e umidade, seguindo uma orientação dos Paumari. Chegando lá, sem se distrair, mediam e pesavam o pirarucu, evisceravam, observavam o sexo, o estágio gonadal (momento reprodutivo), pesavam novamente, colocavam o lacre marcando a identidade do indivíduo. Tudo era anotado.

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Foto: Adriano Gambarini/OPAN

“Na limpeza do peixe eles mandaram muito bem. Limparam da forma que eu aprendi e que eu ensinei para eles”, disse Francisco da Silva de Oliveira Paumari, da Terra Indígena (TI) Paumari do Cuniuá. De acordo com ele, o que é preciso aprimorar para as próximas pescas é a anotação do número dos lacres de identificação, tomando cuidado para não cometer nenhum erro. Francisco também destacou a importância de treinarem a observação do estágio gonadal, lembrando que todas as informações são encaminhadas depois no relatório da pesca ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), responsável por acompanhar e avaliar os pedidos de autorização do manejo.

Enquanto a contribuição de Francisco foi especialmente na higienização do peixe, a pesca foi acompanhada por André Cassiano de Lima da Silva Paumari, da TI Paumari do Lago Paricá. Para ele, os Deni precisam melhorar a agilidade, acompanhando os peixes com a malhadeira para serem mais assertivos. André, como um bom Paumari, conhecido como o povo da água, comentou também sobre os materiais utilizados, como a haste do arpão, que, se for maior, ganha velocidade e possibilita a captura do pirarucu.

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Foto: Adriano Gambarini/OPAN

“Eles ensinaram bem. Explicaram direitinho. Foi muito amuside [bom]”, disse Kazupana Kuniva Deni, da aldeia Terra Nova. Para o coordenador do manejo, Poaravi, as lições foram tão importantes que ele quer acompanhar uma pesca dos Paumari para poder aprender ainda mais. A partir do que foi ensinado por Francisco e André, ele já pensa também nos ajustes necessários, como a forma que se dividem para a contagem dos lagos. Mesmo planejando alterações ele está tranquilo em relação à próxima pesca – quando devem comercializar os pirarucus – por conta da imensa fartura de peixes. “Ano que vem vai ser fácil porque nós criamos a preservação e está bom de pescar. Está bom de pescar porque a gente vigia muito a nossa terra”, enfatizou ele.

Umada Kuniva Deni, que coordena o manejo de sua aldeia Boiador, também já está de olho nos próximos encaminhamentos e, ainda, na expectativa da pesca de 2017. “Eu ainda estou na dúvida, pensando como vai ser a pesca de verdade. O parente estava falando dos riscos. Tem que fazer tudo certo. Se alguém faltar, alguma coisa vai dar errado”, ponderou, mostrando a maturidade e a cautela em relação ao trabalho que vem sendo construindo há anos, junto à OPAN, como mostra um vídeo do projeto Aldeias*, de 2011, quando ele, mais jovem e ainda sem filho, aparece definindo o significado do termo manejo.

No período do Aldeias, mesmo tendo em mente uma futura pesca, a intenção principal era fazer um bom processo do manejo, por conta dos ganhos ligados à sua construção. “O manejo é uma força motriz que gira toda a sociedade. A partir do manejo, você vai discutir a organização comunitária para o trabalho – que vai destrinchar vários subitens –, vai discutir as questões ambientais, que são questões técnicas ligadas à preservação”, explica o indigenista Fernando Penna Sebastião, da diretoria da OPAN, na época coordenador de campo. Ele destacou que a partir daquele trabalho, se criou uma base forte para o que veio depois, como a contagem e a vigilância territorial, realizadas rigorosamente pelos Deni, mesmo no intervalo de 2012 a 2015, quando não tiveram apoio por meio de projetos.

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Maruzava Kuniva Deni - contagem de pirarucu de 2016. Foto: Adriano Gambarini/OPAN.

Para Fernando, a principal característica dos Deni (e motivo de suas conquistas) é sua capacidade de mobilização comunitária, o seu “hina tukiraria” (“vamos todo mundo”). “É um povo de assembleia, de reuniões grandes. As pessoas estão sempre conversando, discutindo internamente os assuntos”, conta. Além disso, Fernando destacou a capacidade de mobilização para o trabalho em si e, mais uma característica deles, a alegria para sua realização: “não se pode deixar de relacionar com uma vitalidade, um desejo de estar feliz, um gosto por sorrir, um gosto por brincar, que vem dentro dessa dinâmica. É a mesma capacidade, porque eles trabalham felizes. Esse é o lance”, enfatiza.

Além dos Paumari, os Kanamari do rio Xeruã, vizinhos dos Deni, participaram da pesca, podendo observar de perto a organização e os passos dados para isso. Panauã Edmilson Kanamari, liderança da aldeia Flechal na TI Kanamari do Rio Juruá, explicou o interesse deles. “Eu venho reparar o trabalho. A gente vai reservar os lagos e se tiver muito peixe a gente vai fazer o manejo com os parentes”, contou.

Após a pesca, os nove peixes foram divididos entre as aldeias e separados para a Amushinaha Putaharu Ve’e [Grande Festa do Pirarucu], realizada dias 26 e 27 de agosto e que deverá agora ficar registrada entre as festividades do calendário anual dos Deni. Ignorando o cansaço da pesca e do deslocamento de canoa para chegar até a aldeia Boiador, eles se pintaram e colocaram adereços, chamando os convidados Paumari, Kanamari e a equipe da OPAN para participar das brincadeiras e das danças. À noite, após uma chuva forte, ainda seguiram firmes. No centro da aldeia, fizeram um canto bonito e alto, em homenagem àquele momento e ao seu povo.

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Festa do Ve'e. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Nos próximos meses, após a experiência da pesca, haverá atividades do projeto Arapaima voltadas ao aprimoramento das práticas de manejo. Está marcada para outubro a avaliação coletiva da pesca, com a participação do Instituto Médio Juruá; depois, será elaborado o relatório da pesca de pirarucu – incluindo dados das contagens –, um plano de manejo e um plano de negócios. Haverá ainda novas oficinas de contagem, apetrechos pesqueiros, legislação e seminários.

As atividades serão realizadas priorizando o viés de integração entre diferentes povos. “Os intercâmbios proporcionam uma rica troca de experiência entre os povos indígenas e comunidades ribeirinhas, que também são apoiadas com o trabalho. Além de aprenderem e aperfeiçoarem suas práticas, eles podem conhecer um pouco mais da realidade um do outro, conseguindo em algumas ocasiões quebrar eventuais estereótipos e preconceitos e se unindo para a conservação do território”, diz o coordenador do projeto Vinicius Benites Alves. Ele destacou o valor da primeira pesca Deni – e da grande festa do pirarucu – enfatizando que este momento representa um passo a mais na implementação de seu Plano de Gestão Territorial e Ambiental**.

Conquistas para o manejo no Médio Juruá

Comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari e da Reserva Extrativista (Resex) Médio Juruá também estão realizando a pesca manejada de pirarucu. O trabalho teve início no Xibauazinho no começo de agosto e está em fase de conclusão nas comunidades Fortuna e Roque.

Até agora foram pescadas cerca de 47 toneladas do peixe, adquiridas pela Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), organização comunitária dos moradores locais, proporcionando melhores ganhos.

“O nosso peixe saia a R$ 4,44 e agora que a associação vai comprar subiu para R$ 4,95” explicou Francisco Sollivan Pires de Araújo, da coordenação do manejo no Xibauazinho, acrescentando que este preço além de mais elevado, inclui a retirada dos pirarucus na comunidade. “Antes era tudo por nossa conta. Tinha que entregar em Carauari e arcar com os gastos de gelo e combustível também”, acrescentou.

De acordo com Josué de Oliveira Sampaio, gerente da Asproc, o pescado está sendo beneficiado e congelado pela própria associação e depois vendido em Manaus, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Uma parte também será comercializada na feira de Carauari, para os moradores locais.

Este ano, além da novidade relacionada ao comércio, o manejo dos moradores da RDS e da Resex teve mais uma conquista com entrada da comunidade Bom Jesus, que passa a somar com seu pescado – 35 peixes em sua estreia – e com seu apoio à conservação dos territórios.

* O projeto Aldeias foi realizado em um consórcio entre a OPAN e a Visão Mundial, com o apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), de 2009 a 2011.

** Conheça aqui a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI).

Contatos com a imprensa

Dafne Spolti

dafne@amazonianativa.org.br

(65) 3322-2980 / 9 9223-2494

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