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Mais uma etapa do plano de gesto Nambiquara

Por: Keka Werneck/OPAN
Expedio registra locais de ocupao na TI Tirecatinga.

Equipe da OPAN e 15 indgenas comemoram resultado positivo da expedio.
Foto de Thiago Foresti/OPAN

Sapezal, MT - O Projeto Berço das Águas, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, realizou uma expedição de três dias pelas águas claras do rio Papagaio, um dos principais afluentes da bacia do Juruena, que banha o noroeste de Mato Grosso. As observações técnicas registradas na viagem, de 20 a 23 de junho, vão subsidiar o Plano de Gestão da Terra Indígena Tirecatinga, onde vivem os Nambiquara. Um grupo de 15 indígenas, representantes dos povos Manoki, Myky, Nambiquara e Paresi, participaram ativamente da viagem. Além de atuar junto aos Nambiquara de Tirecatinga, o Projeto Berço das Águas está presente também nas Terras Indígenas Myky, Manoki e Pirineus de Souza. Todos esses territórios já possuem planos de gestão, elaborados na primeira fase do projeto.

A importância dessa expedição para os povos indígenas da região é socioeconômica, além de histórica e cultural.


Locais bons para pesca e caa, identificados previamente em mapas, foram confirmados em campo.
Foto de Thiago Foresti/OPAN
O ecólogo Tarcísio Santos Silva, consultor que apoia os estudos ambientais do Plano de Gestão da Terra Indígena Tirecatinga, explica que a viagem foi fundamental para o melhor uso do rio Papagaio, com a identificação e confirmação de vários pontos de caça e pesca, onde os indígenas pretendem frequentar agora sistemática e estrategicamente. Também foram apontados vários pontos de coleta vegetal, como a taquara, que é uma espécie de bambu, utilizada pelos indígenas para fazer flecha, entre outros.

A viagem, que partiu da localidade conhecida como Suvaco de Cobra, no município de Sapezal, até o Porto dos Myky, em Brasnorte, foi orientada por etnomapas, construídos pelos Nambiquara, na primeira fase do projeto. Esses mapas expressam a visão do povo sobre os usos e ocupação do território tradicional.

Dois dos principais pontos de caça e pesca identificados foram o Porto Anchieta e o Porto Tenente, que, para os indígenas, também têm uma importância histórica, pois é o local onde muitos deles desembarcavam para a Missão Utiariti. Nos arredores desses pontos, funcionava um pensionato jesuíta, de catequização e alfabetização. A Missão, que iniciou na década de 40, encerrou com a mudança de entendimento sobre o que seja apoiar os povos. “A regra na época era alfabetizar e civilizar os indígenas”, relata o coordenador da OPAN, Ivar Busatto, que realizou intervenções indigenistas pela OPAN nos anos 70 junto ao povo Paresi, em cujo território se situava a Missão. “Mas, com a mudança de concepção sobre o jeito de apoiar os indígenas, a missão jesuíta perdeu o sentido e eles foram embora”.

Na região, localiza-se o Salto Utiariti, uma queda de mais ou menos 85 metros. Trata-se de um local sagrado para os indígenas, de valor histórico e mítico. Foi ali que, no início do século, de 1906 a 1945, o Marechal Cândido Rondon percorreu a área instalando a linha telegráfica.
 
Caça e pesca

Para pescar, os indígenas usaram três técnicas: arpão e máscara; armadilhas com espinhel; e linha e anzol. As espécies capturadas foram trairão, matrinxã, cachara, pacu-borracha, pacuzinho e tucunaré. Eles conseguiram, ainda, fisgar duas espécies de piaus: três-pintas e banana. Porém, durante toda a expedição, os indígenas observaram a diminuição da fartura de peixes.

“Ficamos pescando duas noites e deu bem pouquinho peixe, o que mostra uma grande diferença de tempos atrás. Isso deixa a gente bastante triste porque cada ano que passa os peixes vão desaparecendo”, comentou o indígena Nelson, um Nambiquara que mora na Terra Indígena Tirecatinga.

Para o cacique Manoel Kanunxi, antigo conhecedor e frequentador desta região, isso tem uma explicação muito simples. “Já é impacto das usinas na bacia do Juruena e também dos venenos agrícolas usados em fazendas do lado de fora das nossas terras”, lamenta o cacique.


Indgenas asseguram que pescado est escasso e pequeno no rio Papagaio por causa das presses ambientais.
Foto de Thiago Foresti/OPAN
 A baixa do pescado se deve também, conforme Kanunxi, à ceva feita por não indígenas. A ceva é a prática de oferecer aos peixes grande quantidade de alimento à beira do manancial porque assim fica mais fácil de fisgá-los. Nessa região, eles dão resto de lavoura, como farelo de soja ou milho. “Parece que os brancos são donos do rio, mas não gostam de cuidar”, reclama o cacique Manoki. Tudo isso, diz ele, interfere na ictiofauna. “Antigamente havia pescado em abundância e pesado. Uma vez, quando eu era molequinho, peguei um peixe de 22 quilos, era tão grande que quase me arrastou. O que pegamos desta vez é um restinho e deixa a gente muito preocupado. Este é um rio muito importante para nós, indígenas”.

Quanto à caça, os indígenas observaram que também está mais escassa e arisca. Antes, era mais fácil visualizar antas e queixadas, por exemplo, às margens do Papagaio. E a ave jacutinga era bem fácil de capturar, entre outras considerações feitas por eles.

Integridade ambiental

A coordenadora do projeto Berço das Águas, Artema Lima, destaca que, com relação à integridade do manancial e das margens, está tudo muito conservado na maior parte do trecho visitado. Mas, no segundo dia de viagem, a expedição passou por fazendas de pesqueiro e balneários que, mesmo sendo Áreas de Preservação Permanente (APPs), não estão respeitando a devida distância do leito. Em algumas dessas áreas, foram, inclusive, instalados píeres, que chegam a invadir o rio. “No entanto, de modo geral, o rio Papagaio mantém sua integridade ambiental, principalmente quando as suas duas margens estão protegidas por terras indígenas”.

O rio Papagaio é uma das riquezas naturais do país. De acordo com a Avaliação Ambiental Integrada da Bacia do rio Juruena, feita em 2010 pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, "apresenta altos valores de clorofila na água, devido à abundância de macrófitas fixas da família Podostemaceae, que se desenvolvem em ambientes de correnteza. (...) Tem grau de transparência de cerca de 8 metros, sendo possível coletar, em um único ponto, 65 espécies”.

O indígena Geraldo, da Terra Indigena Tirecatinga, acha de suma importância que tudo isso conste em um livro, para que fique documentado e sirva de orientação no futuro. “Fizemos um bom trabalho e todo mundo esteve unido”, avaliou.

O Projeto Berço das Água vai editar, até dezembro de 2015, o Plano de Gestão da Terra Indígena Tirecatinga. Ainda está prevista mais uma expedição pelo território Nambiquara para a realização de mapeamento dos locais de caça, aldeias antigas, áreas de coleta e outros pontos de ocupação tradicional dos indígenas.
 
Contatos com a imprensa
Keka Werneck - keka@amazonianativa.org.br
(65) 3322 2980 e (65) 9287-8068
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