Xavante de Marãiwatsédé

2012 é um ano marcante para o povo Xavante da Terra Indígena Marãiwatsédé, no nordeste de Mato Grosso. Vinte anos depois de ouvirem a promessa de que o governo iria devolver seu território tradicional -- de onde foram retirados à força em 1966 -- uma comitiva indígena comparece aos mais importantes eventos realizados durante a Rio+20 para cobrar o cumprimento da ação judicial que, desde 2010, reconheceu que fazendeiros invadiram de má-fé seu território e precisam ser retirados.

Os Xavante tiveram sua terra homologada em 1998 pela Presidência da República, mas só conseguiram retornar da diáspora sofrida desde a ditadura militar em 2004, após padecerem às margens da BR-158. Vivem em uma área diminuta, sem acesso seguro aos 165 mil hectares a que têm direito. Em 20 anos, as águas foram contaminadas, a floresta foi devastada e Marãiwatsédé se tornou a Terra Indígena mais desmatada da Amazônia brasileira.

Os Xavante, representados pela FUNAI, venceram a briga na Justiça pela retirada dos não-indígenas, mesmo após inúmeras tentativas de políticos e fazendeiros de Mato Grosso de negociarem a terra indígena invadida visando a permanência da produção agropecuária ilegal. No entanto, o governo federal ainda não implementou o plano de desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsédé, previsto para acontecer até o fim de 2012.

Os Xavante se autodenominam A‘uwê Uptabi ("gente verdadeira"). Pertencem ao tronco lingüístico macro-jê e à família lingüística jê. São um povo tradicionalmente coletor, caçador e pescador. Seus principais rituais incluem: oi’ó, dahono, darini, wa’ía, entre outros. Produzem artesanato com o buriti, algodão, madeira e algumas sementes. Apesar das ameaças à sua soberania territorial, a cultura Xavante continua a se manifestar com extrema vitalidade, sendo retransmitida de geração em geração através da língua, dos rituais e cerimoniais.

Entre suas práticas esportivas estão o uiwede ("corrida de tora de buriti"), uma corrida de revezamento em que duas equipes de gerações diferentes correm cerca de 8 km, passando uma tora de palmeira de buriti de cerca de 80 kg de um ombro para o outro até chegarem ao pátio da aldeia.

Em Marãiwatsédé há apenas uma aldeia onde vivem cerca de 800 pessoas, das quais cerca de 300 são crianças. Numa pequena área sem acesso à água limpa e com poucos recursos naturais, os Xavante permanecem juntos como forma de proteção contra as ameaças dos fazendeiros que invadiram seu território. Eles instalaram empreendimentos agropecuários com apoio do governo estadual e de políticos locais e provocam desmatamentos na tentativa de inviabilizar a permanência dos Xavante.

Histórico de atuação da OPAN

Em razão desse contexto e da gravidade da situação hoje, o envolvimento da OPAN é de origem recente. Através de uma parceria firmada em 2008 com a ANSA, nasce o desafio de atuar conjuntamente com esse povo, buscando formas de reestruturação de suas condições de existência física e cultural. A ANSA foi fundada por Pedro Casaldáliga junto com outros militantes, na época da ditadura militar, e desde a sua criação tem sido uma instituição de solidariedade a serviço da dignidade, dos direitos e da construção da cidadania dos povos indígenas, posseiros e ribeirinhos. Possui atuação históricana região do Araguaia.

Após um diagnóstico realizado pela ANSA, Associação Terra Viva e OPAN, constata-se a necessidade de aumentar a produção de alimentos, numa aldeia em área altamente degradada e com índices significativos de desnutrição infantil. Verifica-se a falta de áreas amplas de floresta para praticar o modelo indígena de roça itinerante, e a ausência de sementes. Há ainda constantes queimadas nas capoeiras no entorno da aldeia, o que provoca o empobrecimento permanente dos nutrientes.

As ações em Marãiwatsédé incluem o incentivo ao uso de técnicas de agroecologia para plantios e recuperação da fertilidade do solo, além da gestão territorial e a valorização da organização indígena. Os indígenas passaram também a se inserir na Rede de Sementes do Xingu, e, cada vez mais, marcam presença em eventos políticos e de formação.

O trabalho da OPAN faz parte das iniciativas da Articulação Xingu Araguaia (AXA), da qual participam ainda a Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (ANSA), a Comissão Pastoral da Terra (CPT/Araguaia), o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Terra Viva (ATV).