Paumari

Historicamente conhecidos como “povo da água”, os Paumari ocupam e manejam com maestria ambientes aquáticos: lagos, áreas de várzea, praias e rios. Essa característica influencia sua dinâmica sócio espacial, de acordo com os ciclos de enchente e vazante. Têm como principal atividade a pesca, sendo conhecidos como exímios pescadores e mergulhadores, utilizando-se principalmente de recursos aquáticos, sobretudo peixes e quelônios. Adotam técnicas de pesca tradicionais e modernas, destacando-se as capturas de peixes com flechas e de quelônios por mergulho. A relação dos Paumari com a água está intimamente vinculada à sua sócio cosmologia.

O povo indígena Paumari vive a sudoeste do estado do Amazonas, em lagos e margens do Médio rio Purus, habitando atualmente duas regiões distintas: uma abrangida pelo município de Lábrea, onde estão localizadas as Terras Indígenas Marahã e Ituxi, às margens dos rios Purus e Ituxi; e outra no município de Tapauá, onde estão localizadas as Terras Indígenas Paumari do Lago Manissuã e Paumari do Lago Paricá, às margens do rio Tapauá, e a Terra Indígena Paumari do Cuniuá, na confluência dos rios Cuniuá e Tapauá. É nesta última área que a OPAN tem realizado historicamente sua intervenção indigenista.

Na região do Tapauá, a maioria dos Paumari tem uma habitação flutuante, usada no período de verão amazônico. Além dela, eles possuem uma casa de palafita (ao estilo regional, com cobertura de palha ou alumínio), localizada em terra firme e frequentada no período de inverno amazônico.

A colonização não indígena da região do Médio Purus foi feita inicialmente pela frente extrativista da borracha, que teve dois grandes ciclos: no fim do século XIX, período em que os Paumari são contatados oficialmente, e em meados do século XX, estabelecendo novas práticas comerciais e de subsistência, o que trouxe grandes impactos para esta população. Nesse contexto histórico, os Paumari não optaram por resistência armada, como outros grupos indígenas da região, tampouco por migrações para outras regiões, como ocorreu nos territórios de terra firme que foram controlados por outras etnias, como por exemplo, os Apurinã, Jamamadi e os Deni (Schröder, 2002).

Com o declínio e praticamente o fim das atividades seringalistas, iniciou-se o processo de exploração do pescado e da madeira, que ainda hoje são as maiores fontes de subsistência e geração de renda na região do Purus. O Baixo rio Tapauá e seus lagos são muito frequentados pela frota pesqueira de Manaus e Manacapuru desde o fim da década de 1970 (Petrere 1978), que recorrem à região para abastecimento dos grandes centros urbanos do estado.

Segundo informações históricas, etnográficas e ambientais, pode-se perceber que os Paumari desenvolveram estratégias específicas e bem-sucedidas de sobrevivência física e cultural para se adaptar ao ambiente social não-indígena (Schröder, 2002). Dado seu conhecimento tradicional na pesca, dedicaram-se a atividades comerciais de venda de quelônios e peixes ao mercado regional, flexibilizando suas relações com os comerciantes aliada à sua dinâmica de ocupação territorial, marcada por diversificação e alta mobilidade.

Breve histórico de atuação da OPAN

A ação da OPAN junto aos Paumari abrange as terras indígenas do Lago do Manissuã (11.230 hectares), Lago Paricá (15.792 hectares) e Cuniuá (42.828 hectares), ao longo do rio Tapauá. Estabelecida em seis aldeias, a população paumari está em torno de 320 pessoas e fala a língua Pamoari, da família linguística Arawá.

Desde 1992 a OPAN vem cooperando com o povo Paumari, no início atendendo mais a demandas nos campos de saúde preventiva e alfabetização, buscando alternativas que fortalecessem sua economia e apoiando a demarcação e a garantia de suas terras. A invasão do território paumari por regatões (comerciantes que adentram rios e igarapés vendendo ou trocando produtos) e pesqueiros levou a equipe da OPAN a propor e incentivar medidas de preservação dos recursos naturais nas terras indígenas. Em 1998, seus territórios foram demarcados pela Funai.

Com apoio do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL), a OPAN realizou em 2000 a campanha “Vamos defender a nossa terra”, que buscou a organização para a preservação dos recursos naturais e medidas de esclarecimento e pressão para ampliação das terras já demarcadas. Em 2001 a OPAN e o PPTAL assinaram um convênio para a execução de um plano de fiscalização e vigilância destas terras indígenas Paumari, com o intuito de capacitar as comunidades indígenas em atividades de proteção e defesa de seus territórios.

De 2009 a 2011, a OPAN trabalhou com os Paumari no âmbito do Projeto Aldeias, que se desenvolveu em cinco terras indígenas do estado do Amazonas, nas bacias dos rios Purus, Juruá e Jutaí por meio do consórcio OPAN-Visão Mundial com apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid). Como um dos resultados deste trabalho, os Paumari do rio Tapauá elaboraram e publicaram seu Plano de Gestão Territorial em setembro de 2011, em um grande evento realizado na cidade de Lábrea, junto com o lançamento do Plano de Vida da Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp). A OPAN deu prosseguimento aos trabalhos com os Paumari na perspectiva de apoiar a implementação de seu plano de gestão por meio do Projeto “Conservação da Biodiversidade em Terras Públicas da Amazônia”.

Como consequência dos cinco anos de trabalho com os Paumari na capacitação e manejo sustentável do pirarucu, em 2013, foi realizada a primeira pesca manejada de pirarucu em terras indígenas no estado do Amazonas, com anuência da Funai e do Ibama. Os resultados superaram a expectativa da equipe técnica e dos próprios indígenas. Para alcançar este feito, desde 2009 os Paumari do rio Tapauá deram início a um trabalho de manejo participativo desta espécie com o intuito de buscar alternativas à pesca predatória já que a região sofreu grande exploração dos recursos pesqueiros por agentes externos, durante muitos anos, o que afetou a população não apenas do pirarucu como demais peixes e quelônios.

A experiência colocou em prática o “Plano de Manejo Pesqueiro do Pirarucu das TIs Paumari”, que contou com o apoio da OPAN, Funai, Instituto Piagaçu e Conservação Estratégica (CSF Brasil). Além dele, também foi estruturado um Plano de Negócios em parceria com a CSF, algo inédito no país para esse tipo de cadeia produtiva indígena.

O Projeto Raízes do Purus dá continuidade a este trabalho exitoso, que trouxe não somente para os Paumari mas para demais povos e ribeirinhos, a possibilidade de uma nova forma de produzir na Amazônia, respeitando a fauna e flora e gerando renda ao mesmo tempo, de forma sustentável e equânime.