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Manoki: a cultura uma festa

Por: Giovanny Vera/OPAN
Festas tradicionais promovem fortalecimento cultural e expressam resistncia e luta por direitos.

O jogo de cabeabol une e diverte os jovens Manoki.
Foto de Giovanny Vera/OPAN

Terra Indígena Irantxe, Brasnorte (MT) – Em meio aos ataques contra os direitos indígenas no Congresso Nacional e no poder executivo, nas aldeias os povos reafirmam o brilho de suas origens. Na Terra Indígena (TI) Manoki, no noroeste de Mato Grosso, a quase 500 km da capital, Cuiabá, durante o ano o povo Manoki realiza, além de seus rituais, encontros culturais que incluem atividades tradicionais indígenas dos quais participam moradores das oito aldeias da terra indígena: Cravari, Paredão, Treze de Maio, Doze de Outubro, Recanto do Alípio, Perdiz, Asa Branca e Cachoeirinha.

A finalidade principal desses encontros, de acordo com José Benedito Zouzenoizokie Tapura, organizador da Festa Cultural do Povo Manoki na aldeia Paredão, é a de “não esquecer que somos índios, não esquecer a nossa cultura apesar dos avanços que nós mesmos temos na nossa vida indígena”. Para ele, os encontros e festas tradicionais servem para incentivar as crianças e jovens a manter a cultura, promovendo, transmitindo e praticando o conhecimento ancestral indígena e a importância destas relações com o seu território.

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Benedito Tapura estava feliz pela participação de todas as aldeias na Festa Cultural do Povo Manoki realizada em Paredão. Normalmente parentes de terras indígenas vizinhas participam. Foto: Giovanny Vera/OPAN

Este alto valor dado à sua própria cultura é promovido pela comunidade Manoki inteira, já que os eventos culturais contam com a participação de lideranças, professores, famílias e associações, desde a organização até a realização dos mesmos. De acordo com o professor Bartolo Warakuxi, da Escola Estadual Indígena Tapura Irantxe, as atividades culturais são um forte incentivo para os alunos. “Com encontros como este é que se fortalece cada vez mais a nossa cultura e também a educação intercultural”, explica Bartolo.

Para o professor José Pedro Venâncio, da Escola Municipal Aliá da aldeia Paredão, a escola está cumprindo um importante papel na valorização do saber local. “Hoje a educação indígena faz a promoção da cultura desde a sala de aula”, disse ele. Assim, a cultura vai de novo enraizando nos jovens e na comunidade. “Antes os estudantes tinham medo e vergonha, mas hoje os jovens usam artesanatos e se pintam, já não é um problema, é uma forma de mostrarem o orgulho deles de ser Manoki”, afirma Venâncio.

A festa cultural na aldeia Paredão

Um evento no mês de abril contou com a participação de anciãos e crianças, famílias inteiras que se reuniram para compartilhar suas tradições, com quase 150 participantes. O encontro durou três dias com uma série de atividades, como partidas de cabeçabol, competição de arco e flecha, apresentações de danças, teatro, preparação de alimentos tradicionais, além de exposição de artesanatos.

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As partidas do tradicional cabeçabol atrairam o interesse de todos os visitantes em Paredão. Foto: Giovanny Vera/OPAN

O cabeçabol é um jogo compartilhado com outros povos da região, parecido com o futebol, mas que se joga com a cabeça e uma bola de látex de mangaba feita por eles mesmos. Foi um dos eventos mais acompanhados, e que, além de muita diversão e gargalhadas, ofereceu prêmios tradicionais indígenas, como frutas, algodão e urucum.

Enquanto os visitantes assistiam os jogos no campo de futebol, um grupo de mulheres estava na cozinha preparando alimentos tradicionais, como carne de caça, porco assado, beiju e chicha de milho. Já as crianças corriam e brincavam, mas sempre espiando a cozinha, com a esperança de quem sabe conseguir um pouquinho de beiju.

Durante o evento as aulas se trasladaram para fora das salas e a escola se transformou num lugar de encontro. Alunos e professores se reuniam, conversavam, entravam e saiam, em um movimento talvez ainda maior que um dia normal. Tudo era porque estavam preparando suas apresentações culturais, construindo seus palcos com madeira, galhos e folhas, e praticando as atuações para não errar no show final. Os estudantes, com suas danças e teatro não deixaram a desejar: conseguiram mostrar uma parte da vida comum e da história dos Manoki.

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Jovens e crianças Manoki demonstraram orgulho apresentando e vestindo sua cultura, representada em cocares e colares. Foto: Giovanny Vera/OPAN

A festa no Paredão foi considerada por seus organizadores como um sucesso, devido à participação e envolvimento dos parentes das outras aldeias durante os três dias que durou. Para o professor Venâncio, isso acontece porque os Manoki consideram a cultura como uma totalidade que abrange toda a realidade, desde a alimentação, a educação e até a forma de pintar o corpo.

“Se não fazemos essas festas, as crianças não vão aprender sobre nós mesmos. Elas vão querer só coisas dos brancos e não é certo isso. Praticando a nossa cultura é que vamos incentivar para que elas também cuidem da história dos Manoki”, afirma Lucibete Yurusi, da aldeia Treze de Maio. Para ela, eventos como este servem para fortalecer a união e trazem mais força para o povo Manoki conquistar o que é seu e proteger o que está em perigo.

Os Manoki acreditam que sua cultura é uma fonte de vida e que mantê-la é uma necessidade, ainda mais frente às dificuldades atuais que eles vivem, por conta das ameaças contra seus territórios e seus direitos. José Benedito tem essa certeza porque “tudo o que precisamos é da nossa cultura e dos nossos direitos”, disse ele.

 

* A OPAN, através do Projeto IREHI: Cuidando dos Territórios e o financiamento do Fundo Amazônia, apoia o fortalecimento das expressões culturais indígenas nas TIs Manoki, Menkü, Pirineus de Souza e Marãiwatsédé.

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