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A pesca mais esperada

Por: Dafne Spolti/OPAN.
H anos realizando o manejo pirarucu, povo Deni realiza primeira pesca comercial com sucesso surpreendente.

Deni se preparando para pescar. Makiri Minu Deni frente. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Carauari (AM) - “Uôôô!”, gritavam os Deni correndo pelo acampamento até a clareira para ver lá embaixo, no rio Xeruã, a chegada dos peixes. “Três!”, “oito!”, anunciavam enquanto as canoas encostavam no flutuante. Mas eram nove pirarucus na primeira leva, o que indicava o sucesso da pesca manejada de pirarucu e um motivo a mais para os Deni passarem manhã, tarde, noite e madrugada conversando, contando piada e rindo, entre uma troca e outra de equipe do manejo. Em bem menos tempo do que previam – um dia em vez de três – capturaram os 50 peixes autorizados pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

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Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Assim que chegavam ao flutuante, os imensos pirarucus eram pesados, lavados, eviscerados, medidos, e recebiam o lacre de identificação, como mandam as regras do manejo. Depois disso, seguiam para um barco geleiro até a boca do rio Xeruã, passando por um caminho de corredeira que exigia bastante atenção dos motoristas. Quatro deles foram para a feira de Itamarati. Os outros 46 a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc) adquiriu, realizando o escoamento com os manejadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari e da Reserva Extrativista Médio Juruá, que também estão fazendo sua pesca, e têm o apoio da OPAN por meio do projeto Arapaima: redes produtivas, executado com recursos do Fundo Amazônia.

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Flutuante de tratamento do pirarucu. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

“Nós estamos muito felizes”, disse Poaravi Makhuvi Deni, da aldeia Morada Nova. Ele contou os passos dados para hoje conseguirem consolidaro manejo sustentável de pirarucu. O processo inclui desde a demarcação do território, a criação de sua Associação do Povo Deni do Rio Xeruã (Aspodex), a elaboração do plano de gestão territorial e as práticas de gestão, como a vigilância territorial e todas as etapas do manejo de pirarucu, voltadas à conservação. “Tem que contar a nossa história”, destacou ele.

Além dos benefícios que o manejo já vem trazendo para a organização dos Deni e para a conservação, agora com a renda gerada na pesca haverá outros ganhos na melhoria da qualidade de vida do povo Deni, como explicou o vice-presidente da Aspodex, Pha’avi Hava Deni, da aldeia Boiador. “O manejo é bom para poder adquirir produtos da cidade, e para, por exemplo, contratarmos consultores que podem dar oficinas para nós, como a de artesanato”. Ele mostrou, ainda, a dimensão coletiva de seu manejo, cujos ganhos decidiram formalmente destinar para a próxima pesca e para a realização de seus projetos.

Intercâmbio estratégico

O sucesso da pesca manejada dos Deni tem a ver também com o apoio dos Paumari do rio Tapauá, reconhecidos pela qualidade e rigor de seu manejo, que acompanharam tudo incansavelmente. Eles disseram que os Deni estão no caminho certo, mas deixaram claro que ainda há o que aprimorar. Mencionaram, por exemplo, que no momento da pesagem e limpeza do peixe poderiam ter uma divisão mais precisa do trabalho, como explicou José Lino Vintino da Silva Paumari. Ele e Sebastião Basque de Assis Paumari parabenizaram os Deni pelo manejo e os convidaram para irem a suas terras indígenas no Tapauá. “Estão de parabéns principalmente pela quantidade de peixes que têm nos lagos”, destacou Sebastião, em referência ao trabalho de conservação que eles vêm fazendo.

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A caminho do lago com José Lino e Sebastião Paumari. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

“Eu quero pegar experiência com os meninos [Paumari] para ter mais prática ano que vem”, disse Darawi Amilton Kanamari (que mora na aldeia Deni Itaúba), detalhando porque ficou tão dedicado à atividade,virando a noite na pesca e ainda ajudando na manhã seguinte a equipe do flutuante. Tarsila dos Reis Menezes, indigenista da OPAN, destacou que a troca de experiência com os Paumari é muito importante para o manejo dos Deni porque assim estão iniciando o trabalho da melhor forma possível. “Estão aprendendo do jeito certo com os Paumari, sem vícios”, disse lembrando que foi muito importante a participação de André e Francisco Paumari na pesca experimental de 2016 e que desde o início do projeto Arapaima os Deni vêm acompanhando por conversas e pelo vídeo “Paumari – o povo da água” o trabalho deles.

“O manejo foi sensacional. Não poderia ter sido melhor”, disse o pesquisador em manejos comunitários João Vítor Campos-Silva, conhecido como JB. Ele observou que isso é resultado da organização e do envolvimento de todas as aldeias Deni, além do suporte de parceiros. “Ao lado deles tem a Asproc que pode ser uma grande aliada no escoamento dos produtos”, destacou. Campos-Silva falou sobre a importância do manejo de pirarucu em suas diversas dimensões, explicando que é uma experiência bem sucedida de gestão comunitária dos recursos baseada na associação entre conservação e melhoria da qualidade de vida. “Este é um dos projetos de desenvolvimento sustentável mais concretos que existem, um dos exemplos mais bem sucedidos em escala global”, enfatizou.

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Deni e o pesquisador JB. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Assim como os Deni, a OPAN se sente muito feliz com a pesca deles, com quem trabalha desde antes da demarcação, participando de todo o processo do manejo de pirarucu, sempre na perspectiva da parceria com o povo, que é protagonista em suas conquistas: “É importante Deni ter consciência de que o aphani [dinheiro] que vai ganhar é fruto do empenho deles próprios”, fez questão de destacar o indigenista da OPAN Renato Rodrigues Rocha numa reunião feita à noite no acampamento, após a pesca. Ele e Tarsila mais uma vez mencionaram a organização do povo Deni, que está ainda mais fortalecida com o manejo: “O que a gente acha mais importante é todo mundo estar unido”, disse Tarsila Menezes. Durante a reunião houve momentos emotivos, mas logo após a conversa sobre o manejo ela seguiu com o astral típico dos Deni que dali a pouco já estavam em outro tema, falando sobre vigilância territorial. Afinal, a pesca acabou, mas ela é só uma parte da história.

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Todos juntos no manejo Deni. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

 

Contatos com a imprensa

Dafne Spolti

dafne@amazonianativa.org.br

(65) 3322-2980 / 9 9223-2494

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