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Um manejo colorido de urucum

Por: Tarsila dos Reis Menezes
Relato da Indigenista Tarsila dos Reis Menezes sobre a pesca manejada do povo Deni

Pescadores
Foto de Renato Rodrigues Rocha/OPAN

Como fazer um simples relato de um manejo tão grandioso, sendo que nele há vários nuances e uma riqueza ímpar de particularidades do povo Deni? Assim, me debruço com dedicação e um olhar atencioso, em busca de retratar um pouco da pesca Deni àqueles que não tiveram a honra de vivenciá-la.

Ainda que os Deni sejam historicamente habitantes de terra firme e reconhecidos como bons caçadores, o ve’e (pirarucu) faz parte da gama de histórias cosmológicas do povo, e os anciãos narram a origem do ve’e detalhadamente, cabendo fazer aqui um breve recorte:

“Quando vinham baixando o rio, o homem falou para a irmã dele: ‘agora você vai virar juriti e eu vou virar ve’e, aí ele pegou urucum e pintou todinho o corpo dela, a perna, o bico, e se pintou também, de ve’e. Disse: ‘Agora, onde eu estiver eu sou como ve’e, e onde eu estiver você fica sempre comigo, me beirando, você fica cantando e eu fico dentro da água, nos lagos e rios’. Ela concordou: ‘tá bom irmão, onde tu ficar eu vou cantar lá’, ai ela virou juriti e voou, e ele emborcou a canoa e virou ve’e. Onde o pessoal pega o ve’e ele fica cismado, porque ele de primeiro era gente, né!”

Pela manhã, algumas pessoas ouviram atentamente essa história contada pelo pajé Dr. Barros, cuja presença foi essencial no acampamento da pesca. Haja visto que o papel dos pajés está onipresente na vida Deni, e nessa ocasião, ao contrário de ameaçador, assumiu caráter positivo. Tanto Dr. Barros como Tanu, estavam lá para curar e rezar nas pessoas que ficassem enfermas, como ocorreu com Poravi. Logo que ele foi picado de cobra, Tanu chupou o veneno de sua perna, com a intenção de expelir e curar: “Assim que a cobra pica, tem que chupar o veneno na hora, e por para fora, para não fazer efeito, já o Dr. Barros, ele cantou em silêncio para curar o Poravi” explicou Tanu. Ao amanhecer, junto do técnico de enfermagem, Poravi partiu à cidade em busca de cuidados complementares, como soro antiofídico.

O acidente da cobra não interferiu no clima do acampamento, que esse ano estava ainda maior: várias fogueiras, bancos, trapiches, mesas, redes e mosquiteiros configuravam a alegria da pequena “aldeiazinha”, como chamavam carinhosamente os Deni. Passar cerca de uma semana nessa aldeiazinha foi como vivenciar novamente meus tempos no Projeto Arapaima. A pesca exigiu trabalho e esforço de todas as equipes, mas o espaço estava cheio de vitalidade, brincadeiras e muitas risadas! Como sempre havia muita fartura, variados tipos de peixe, em suas diversas formas de preparo: moqueados, assados, fritos ou caldeirada – acompanhados, logicamente, de farinha. Também teve jacaré-açu, mutum e muitos macacos, com certeza os caçadores estavam sem panema, ou seja, com sorte.

Paralelamente aos horários estabelecidos de almoço e jantar as fogueiras encontravam-se frequentemente acessas, cozinhando iguarias como mingau de banana, bucho de ve’e e ovos de jacaré. Mas quando se ouvia a zoada dos motores que transportavam o peixe até o flutuante de limpeza, todos paravam seus afazeres para observar quantos peixes haviam chego. “Eu fico muito animada de ver chegar o ve’e, e ele não é do kariva (branco), ele é nosso! Por isso todas as aldeias estão trabalhando junto! Todos estamos comendo, rindo, conversando, contando histórias”, afirmou Tabaha – anciã e liderança da aldeia Boiador.

Outros anciãos e lideranças marcaram presença na pesca, como os caciques Babá e Biruvi, pessoas que vivenciaram o processo de autodemarcação territorial, que lutaram arduamente para a homologação da Terra Indígena (TI), e que hoje enxergam o manejo do ve’e como reflexo dessa luta. Os caciques assumiram suas posturas de lideranças, fiscalizando e apoiando os grupos da pesca, conforme explicou Biruvi: “Vamos observar os trabalhos, pescar e comer em união, porque nós somos Deni, a terra é de Deni, o manejo é nosso! Só uma aldeia não tem força, com a união e a parceria existe a força!”.

Para os Deni o manejo do ve’e está vinculado a uma série de conquistas, já que as narrativas orais desse teor estão sempre vivas e pulsantes. Assim, discursar sobre o manejo do ve’e necessariamente remete à época da exploração dos patrões de seringa, rememorar a luta pela demarcação da terra, ressaltar a importância da vigilância territorial, a elaboração do plano de gestão, a preservação dos lagos, e a subsequente abundância dos recursos naturais que há na TI.

Mesmo com todas essas conquistas os Deni têm consciência de que ameaças ainda existem. É nesse viés que vêm consolidando alianças e parcerias com os vizinhos extrativistas. Hoje existe um constante diálogo com os ribeirinhos, à medida que os Deni participam de fóruns, encontros e reuniões vinculados ao Território Médio Juruá. As relações estão se estreitando cada vez mais, hoje o manejo dos Deni é reconhecido e valorizado pelos habitantes da RDS Uacari e Resex Médio Juruá.

As parcerias e intercâmbios com as instituições locais e com outros indígenas (como os Paumari) têm fortalecido muito o manejo dos Deni, além das oficinas de organização comunitária, realizadas no âmbito dos Projetos Aldeias (2009-2011) e Arapaima: Redes Produtivas (2015-2018). E como desdobramento disso a própria organização comunitária tem ganhado forças. Este ano, por exemplo, o planejamento da pesca foi protagonizado pelos Deni, sendo que no ano anterior contou com o auxílio da OPAN. O diretor da associação, Pha’avi, contou um pouco da experiência: “Toda a diretoria da Aspodex que executou o planejamento da pesca. Na reunião fizemos a divisão das funções dos grupos de trabalho, a lista dos materiais necessários, combinamos a data de chegada ao acampamento da pesca, decidimos a cota dos peixes, planejamos a contagem, decidimos muita coisa. Foi muito legal a gente fazer tudo isso sozinhos!”. 

Além do planejamento da pesca, os Deni também conversaram a respeito de como utilizar o recurso advindo do manejo. A anciã Tabaha acredita que a venda do peixe possibilitará melhorias no flutuante de vigilância, e com brilho nos olhos, afirmou: “mais pra frente, com esse dinheiro vamos adquirir nosso próprio barco. A ajuda de nossos parceiros Asproc e Amaru tem sido muito boa pra nós.” O diretor da Aspodex afirmou que as aldeias estão acordando em investir na produção de farinha, na criação galinhas e confecção de remos, “mas só vamos decidir mesmo como gastar o dinheiro votando em assembleia”, ponderou.

Não há como negar que o sucesso do manejo está interligado à organização comunitária, e isso tem repercutido positivamente na Aspodex. Antes, grande parte das discussões referentes às suas problemáticas, como saúde, educação, vigilância, e assuntos de caráter público e privado, se discutiam basicamente em assembleia.  Ao passo que, hoje, as reuniões e encontros se dão com mais frequência, facilitando tomadas de decisões e resolução de problemas. Vale ressaltar que essa dinâmica não tira a importância e a exuberância das assembleias anuais, momento ápice de todas as pautas e discussões, episódio ímpar que funciona como uma engrenagem, a qual mantém ou remodela as estruturas das conjunturas. Durante as assembleias aparecem novos cantos, as pessoas se embelezam com pinturas corporais, brincos, colares, pulseiras, cocares e outros adornos. Momento também de encontro, confraternização e diversão!

A pesca se fez aos moldes de toda essa organização e alegria. Apareceram sim alguns contratempos e dificuldades, pois, em razão de as águas do rio Juruá e consequentemente do rio Xeruã não terem vazado (secado) o suficiente para a época, fenômeno conhecido na região como “repiquete”, os lagos de pesca estavam mais cheios que o normal. Situação que acarretou no “afugentamento” dos ve’es para o fundo dos lagos, pequenos igapós, e para o rio Xeruã.

Mas os pescadores não desistiram facilmente, com paciência e esforço lançaram as malhadeiras dia e noite. E quando os ve’es apareciam, cercavam-nos, manuseando as malhas para facilitar a retirada do peixe. Cabe destacar que os Deni contaram como em outros anos com a ajuda dos Paumari durante a pesca, Eneias e Caio. Como coordenador dos pescadores, Darawi Amilton Kanamari, relatou um pouco de sua experiência: “os carregadores ajudaram muito, passavam a canoa de um lado para o outro, em terra firme até chegar ao lago, eram uns 10 minutos andando (...) a hora que eu mais gostava era quando a gente cercava o peixe, quando eu lançava ficava bem animado, todos nos esforçamos muito, e quando cansava, a gente se revezava para não largar a caçoeira”.

Apesar de a pesca ter sido um pouco mais trabalhosa, agora os Deni já sabem como agir caso aconteça outro “repiquete”. Foi uma experiência diferente pescar em outros lagos, além do Lago Grande. No último dia de pesca os pecadores a finalizaram em grande estilo: pintaram seus rostos de urucum, com o grafismo do ve’e, rememorando a história cosmológica do peixe que era gente. O pajé Dr. Barros em tom de brincadeira exclamou: “vocês só pegaram todos os ve’es porque eu rezei para eles aparecerem!”, as risadas foram muitas.

Confesso que o momento de despedida apertou o meu coração, mas as partidas foram alegres. Animadas, as famílias levavam vísceras salgadas de pirarucu para preparar em suas respectivas aldeias. Também carregavam consigo a experiência de mais um ano de pesca e do momento vivido. “Quando for lá pelas seis horas da tarde, eu vou ficar lembrando, vou ficar lembrando de tudo isso, de como foi amushide (bom), também vou me lembrar de você”, essas foram as últimas palavras que, ouvi, sorrindo.

Nota: Entre os dias 29 de agosto e 01 de setembro foram pescados 70 pirarucus, conforme a cota acordada pelos Deni e autorizada pelo Ibama. Cerca de 100 pessoas participaram da pesca. Os peixes foram transportados até a boca do Xeruã, no barco geleiro da Amaru, construído em parceria entre organizações parceiras que atuam no Território Médio Juruá.

A estreia do barco foi protagonizada pelos Deni, em seguida os moradores da RDS e Resex começaram sua pesca. O valor pago pela ASPROC aos Deni foi de R$6,00 por quilo de pirarucu manejado. Está ação é resultado do Projeto Arapaima: Redes Produtivas, financiado pelo Fundo Amazônia, BNDES.     

Tarsila dos Reis Menezes é indigenista, antropóloga e membro da OPAN. Trabalha há quatro anos com o povo Deni do Rio Xeruã. Contato: tarsilamenezes@gmail.com

  

Siglas

Amaru: Associação dos Moradores da RDS Uacari

Aspodex: Associação do povo Deni do rio Xeruã

Asproc: Associação dos Produtores Rurais de Carauari

FAS: Fundação Amazonas Sustentável

Ibama: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis

OPAN: Operação Amazônia Nativa

RDS: Reserva de Desenvolvimento Sustentável

Resex: Reserva Extrativista

TI: Terra Indígena

 

Contatos com a imprensa:

Dafne Spolti

(92) 9 8405-1757

(92) 9 9223-2494 (WhatsApp)

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