15 de dezembro de 2010

Por: Júlio Carignano Um marco histórico da luta pela terra aconteceu na cidade de Cascavel, no Oeste do Paraná, onde comunidades indígenas e movimentos sociais discutiram a pauta comum da luta pela terra. Pela primeira vez na história, um assentamento sem-terra passou a ser considerado ‘terra sagrada Guarani’ e o Paraná se tornou o primeiro […]

Por: Júlio Carignano

Um marco histórico da luta pela terra aconteceu na cidade de Cascavel, no Oeste do Paraná, onde comunidades indígenas e movimentos sociais discutiram a pauta comum da luta pela terra. Pela primeira vez na história, um assentamento sem-terra passou a ser considerado ‘terra sagrada Guarani’ e o Paraná se tornou o primeiro Estado da nação a ter representantes Guarani na Via Campesina, organização mundial que aglutina camponeses sem-terra, pequenos e médios produtores, trabalhadores agrícolas e mulheres rurais.

Esta articulação aconteceu no encontro organizado pela parceria Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)/OPAN (Operação Amazônia Nativa), o evento realizado nos dias 11 e 12 de dezembro, saiu das aldeias e partiu para o assentamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), Valmir Mota, que passou a ser considerado uma ‘tekoha’, ou seja, uma terra sagrada para o povo Guarani. A área é ocupada pelos trabalhadores rurais há pouco mais de 2 meses, reunindo cerca de 40 famílias. O assentamento leva o nome do sem-terra conhecido como ‘Keno’, executado por seguranças particulares na antiga estação da transnacional Syngenta, em Santa Tereza do Oeste.

No 1º Encontro de Rezadores e Lideranças, que aconteceu no mês de junho em Santa Helena, os Guarani formaram uma comissão para tratar de questões como as demarcações de terras e que também tem o papel de acompanhar os processos de mapeamento de áreas em situação de litígio nas regiões Oeste e Sudoeste.

A expectativa dessa segunda edição era fazer um balanço dos trabalhos desde o primeiro encontro, apresentar seus problemas às autoridades presentes, além de promover uma troca de experiências entre as comunidades das 12 aldeias representadas na reunião. Superando as expectativas iniciais, os Guarani ainda conseguiram se fortalecer quanto representatividade política, pois passaram a fazer parte da Via Campesina, que reúne movimentos sociais de luta pela terra, além de receberem a garantia de parlamentares presentes que colocaram seus mandatos à disposição da causa indígena.

Integração

A reunião fortaleceu a integração entre o MST e os Guarani, uma vez que os trabalhadores rurais camponeses garantiram a estrutura para realização do encontro, como hospedagem e alimentação, recebendo o povo tradicional como um genuíno integrante dos movimentos sociais de luta pela terra.

O primeiro dia do encontro contou com a presença do coordenador estadual da Via Campesina, Roberto Baggio, que expôs a necessidade da articulação entre os povos indígenas e os movimentos sociais em virtude da luta ser comum. O líder do movimento no Paraná aproveitou a oportunidade para convidar os Guarani a integrarem a Via Campesina. Segundo Baggio, o Paraná será o primeiro estado do País a contar com integrantes Guarani na organização. Ficou definido que os indígenas Lino César Pereira e Sergio Karay Fernandes farão parte do movimento. A intenção é que o ingresso de indígenas na Via Campesina passe a ser corriqueiro e sirva de modelo para outros estados na nação, aos moldes do que já acontece em outros países da América do Sul como a Bolívia, Equador e o Paraguai.

Mandatos

O segundo dia do encontro contou a presença do deputado estadual eleito Professor Lemos (PT) e da assessoria do deputado federal Dr. Rosinha (PT). Para Moisés de Campos, que compõe o coletivo do mandato do deputado Rosinha em Cascavel, o encontro foi simbólico. “Os movimentos sociais e os Guarani estão conversando em uma terra livre, um espaço comum. Esse é um coletivo da terra, onde não existe separação entre branco e índio, mas onde todos somos acima de tudo seres humanos lutando por uma pauta comum”.

O assessor parlamentar deixou o mandato do Dr. Rosinha à disposição dos Guarani, tanto como o apoio logístico estrutural, quando na defesa incondicional das lutas dos povos tradicionais.

Enquanto isso, o Professor Lemos, eleito nas eleições de outubro para uma cadeira na Assembleia Legislativa do Paraná, prontamente colocou seu mandato à disposição dos Guarani, afirmando que seu “mandato não é do Professor Lemos, mas sim uma conquista coletiva, um mandato popular, voltado à classe trabalhadora do Paraná”.

Lemos garantiu que as portas de seu gabinete estarão abertas aos povos indígenas, destacando que um de seus grandes compromissos será com a educação do campo, que engloba os povos tradicionais. Ele também se comprometeu a fazer visitas as todas as aldeias Guarani da região Oeste e Sudoeste. O deputado eleito ainda recebeu das mãos das lideranças indígenas uma pauta de reivindicações, também entregue à assessoria do deputado federal Dr. Rosinha.

Carta às autoridades

Um documento contendo reivindicações das comunidades Guarani das regiões Oeste e Sudoeste do Estado foi lido ao final do encontro pela indígena Paulina Martinez Benitez, da comunidade Y’hovy, do município de Guaíra. Na carta, os Guarani solicitam maior apoio na luta pela terra e nas demarcações; ampliação de escolas indígenas nas comunidades dando continuidade a política adotada pelo governo estadual; maior apoio nas questões de agricultura e moradia; além do repasse de ICMS (Imposto de Circulação sobre Mercadorias e Prestação de Serviço) ecológico à algumas comunidades.

Antes do encerramento das atividades, os Guarani fizeram um agradecimento especial à Iris Mota, viúva de Keno, que é uma das líderes do assentamento sem-terra, destacando a receptividade aos indígenas. Emocionada, a camponesa afirmou que as portas do assentamento estarão sempre abertas aos povos Guarani.

Toda essa integração entre os povos tradicionais e os movimentos sociais foi abençoada nos dois dias do encontro pelos ‘xamóe’ (rezadores Guarani), que no ritual realizado no assentamento do MST pediram para que ‘Ñanderu’ (o pai celestial) ilumine a caminhada dos líderes indígenas e camponeses, dando maior coragem no desafio de lutar pela terra.

 

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