13 de abril de 2016

Texto dedicado ao menino Jack, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Cujubim, no Amazonas. Por: Dafne Spolti/OPAN* Jutaí-AM – Na floresta amazônica, a vida parece inteira. Os povos indígenas e ribeirinhos vivem cada tempo de uma vez. Com maior precisão acumulam seus 80 anos, 50, às vezes somente quatro anos, vividos a cada dia. Mas a idade […]

Texto dedicado ao menino Jack, da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Cujubim, no Amazonas.

Por: Dafne Spolti/OPAN*

Jutaí-AM – Na floresta amazônica, a vida parece inteira. Os povos indígenas e ribeirinhos vivem cada tempo de uma vez. Com maior precisão acumulam seus 80 anos, 50, às vezes somente quatro anos, vividos a cada dia. Mas a idade não importa. Interessa é ir ao roçado plantar macaxeira, abacaxi e caju. Comer peixe com farinha e açaí. E buscar melhorias para a família e a comunidade.

Para quem mora nesta região de floresta, a vida é que tem valor. “O importante é ter saúde” é levado à sério por aqui. É para isso a vida. Para se ter saúde. Nesta região, são as pessoas que importam mais do que tudo. “Você tem mãe? Tem pai? Estes são meus filhos. Aquela é minha avó”. Os assuntos sempre estão em torno das pessoas, de seus traços, suas conquistas e do quanto algumas fazem falta. Assim é a vida na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Cujubim, um gigante amazônico.

Localizada dentro do município de Jutaí, seus moradores vivem hoje em duas comunidades, na entrada do território, no rio de mesmo nome, dividindo o dia a dia com uma natureza fantástica, abaixo de um céu intocável. Compõe a beleza da vida local um ar introspectivo característico de pessoas que vivem fora dos centros urbanos, às vezes provocado por um pouco de contrariedade. Ao tempo em que há plenitude, também imperam necessidades difíceis de se realizar, como a visita a parentes muito distantes, o acesso a escolas boas e à saúde de qualidade, além da compra de alimentos e outros produtos de fora do território, como roupas, televisão – quem sabe um aparelho de radiofonia para a comunidade, que é por onde as informações mais circulam na região.

Parte dessas necessidades frequentemente é adiada, porém ir à cidade não é apenas um desejo, mas algo a se fazer inevitavelmente, como explicam Valdi de Almeida das Chagas e Maria Arlete Tiago de Oliveira, um casal tranquilo e amoroso da comunidade Novo Paraíso. “Às vezes, quando eu vou à Jutaí, é pra comprar rancho; se não, é caso de doença. Pra passear mesmo, não tem condição”, conta Valdi. De acordo com eles cada viagem deve ser planejada com seis meses de antecedência, tempo suficiente para conseguir os recursos, vendendo farinha ou peixe àqueles que vêm de fora. “Daqui pra lá, pra fazer uma viagem com o meu barco aí, no mínimo tem que ser dois mil reais”, explicou ele. O litro de gasolina custa pelo menos R$ 7,00 dentro da reserva (vendido por comerciantes que passam por ali) e cerca de R$ 4,50 em Jutaí.

Valdi e Arlete. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Esse custo elevado deve-se à extensão do trajeto percorrido. São aproximadamente cinco dias de barco até Jutaí a uma velocidade de 15 km/hora. Para Eirunepé, apesar de ser um município geograficamente mais próximo ao território, a viagem não é viável. Exigiria seis dias de viagem pelo rio Jutaí e mais dois através de varadouro (trilha pela mata), ao que praticamente ninguém se arrisca. A logística é muito difícil em toda a região da bacia do Solimões, de forma que as comunidades e famílias acabam ficando muito isoladas, o que ocorre na RDS Cujubim que tem 2,4 milhões de hectares – o tamanho do estado do Sergipe.

É por conta dessas dificuldades que muitas pessoas acabam passando muito tempo sem ver familiares queridos, como Maria Ivaneide da Silva, uma pessoa tímida, mas com uma força política bem marcada na comunidade Vila Cujubim. Ela saiu há nove anos de Eirunepé e nunca mais voltou. “Quando vim de lá meus irmãos eram todos pequenos, rapazinhos. Agora já estão casados e as mulheres deles não conheço, não. Nem os filhos deles”, disse. Este fim de ano ela pretende ir para lá. Se tivesse condições, gostaria também de viajar para Cruzeiro do Sul, no Acre. “É lá que minha bisavó mora, por parte de mãe. Tenho tias também: umas três, mas só conheço uma”, contou.

Maria Ivaneide. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Ao mesmo tempo em que sente essa falta de visitar parentes, Ivaneide talvez precise se preparar para se distanciar de outros filhos, além do mais velho, de 14 anos, que mora com sua mãe em Eirunepé. O ensino é melhor naquele município do que na RDS e é por conta da educação que pensa em encaminhar outros filhos para lá ou até para Manaus. Ela e diversos moradores disseram que existe grande rotatividade de professores, que chegam e vão embora antes mesmo de completar o ano letivo, muitas vezes. Ela é merendeira na escola da Vila Cujubim pela manhã e acompanha a questão bem de perto, além de verificar com atenção o desenvolvimento escolar dos seus filhos. “Meu menino de 11 anos já está há cinco estudando aqui e não sabe nem escrever o nome. Eu acho que se fosse na cidade já era para ele estar no mínimo na 5ª série. Só o que está com a minha mãe está numa série bastante boa e já vai para o primeiro ano”.

Apesar das distâncias, saudades e da educação precária, as questões de saúde são as maiores preocupações dos moradores da RDS Cujubim, como afirmaram Valdi e Arlete. Ela, se recupera de uma malária que havia acometido quase todas as pessoas do Novo Paraíso, inclusive os filhos deles. Para os exames, é preciso se deslocar até a Vila Cujubim, onde tem agente de saúde e microscópio. Mas o trajeto também não é simples. “É longe demais e a gente não tem recurso para ir na hora. Eu ia agora lá fazer a lâmina da menina [filha] e não tem gasolina. Não sei como vou fazer, mas tenho que ir de qualquer jeito”, disse Valdi. Arlete contou que, às vezes, procuram o Polo de Saúde Indígena da Terra Indígena Rio Biá, que fica a meio caminho de Jutaí.

Mesmo na Vila Cujubim, que possui uma estrutura mínima, a saúde traz grandes preocupações. Enquanto dava atenção aos filhos, Maria Rosilda Lopes de Sousa, uma acreana bastante extrovertida, explicou a falta de acesso nos casos de emergência da RDS. “Nunca vieram buscar ninguém não, mana. Nunca, nunca, nunca, nunca. Se a pessoa não descer de rabetinha [motor rabeta], eu digo que morre”, revelou.

Maria Rosilda com seus filhos. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

Essas questões, somadas aos problemas na educação e às distâncias, às vezes provocam em Rosilda desejo de partir – destino que ela deixa para Deus decidir –, mas Rosilda gosta de morar lá, principalmente pela tranquilidade em relação à segurança dos filhos, o que é comum também a Maria Ivaneide, da Vila Cujubim e à Valdi e Arlete, do Novo Paraíso. Essa sensação envolve os visitantes da RDS mostrando uma experiência de liberdade não vivida nos centros urbanos, onde é preciso sempre ter cautela e certo grau de desconfiança.

Saudades de Jack

Na RDS o medo é outro. Medo dos bichos da floresta, intensificado no último ano, em que um trágico acidente deixou a todos em duradoura tristeza, quando o menino Leandro Santos Batista, chamado de Jack, foi morto por uma onça. Ele tinha apenas quatro anos de idade.

Mesmo com seu pouco tempo de vida, porém, Jack viveu plenamente. Mamou ao peito da mãe, fez muita graça com as pessoas da Vila. Pôde conhecer as frutas da região, aprendeu o sabor do ingá, do açaí, e do suco de araçá. Comeu tapioca, chutou bola, andou no colo do pai e brincou muito no rio. Jack viveu uma vida inteira, um dia de cada vez, com as pessoas que amava, a quem deixou uma saudade imensa, um vazio infinito.

*Este texto foi possível pelo trabalho que a OPAN desenvolve na RDS Cujubim, com o projeto “Arapaima: redes produtivas”, executado com recursos do Fundo Amazônia.

Contatos com a imprensa

Dafne Spolti – dafne@amazonianativa.org.br

Telefone: (65) 3322-2980 / 9223-2494

www.amazonianativa.org.br

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