04 de maio de 2021

Pandemia impactou atividades importantes para a geração de renda, como extração do óleo de copaíba e coleta de sementes.

Por Helson França/OPAN

A chegada da pandemia alterou as relações sociais e acelerou os processos de mudanças em diversas atividades, tanto nas comunidades urbanas como naquelas mais conectadas à natureza – como no caso dos povos indígenas. Por todo o país, grupos considerados referências no desenvolvimento de iniciativas econômicas sustentáveis tiveram de se adaptar à nova realidade. A escalada da pandemia culminou, inevitavelmente, na interrupção das atividades.  Com a vacinação, porém, vislumbra-se um cenário mais otimista, traduzido bem por duas palavras: retomada cuidadosa.

Ao se vedar o tronco da árvore de copaíba a planta fica saudável e poderá produzir mais óleo em cerca de três anos. Foto: Adriano Gambarini/OPAN.

Situado em uma Terra Indígena na região Sul do Amazonas, o povo Jamamadi, especialista na extração equilibrada de óleo de copaíba das árvores das florestas, traça planos para voltar aos trabalhos no próximo inverno – a partir do final de junho. A estação é considerada a mais propícia ao início da atividade, por ser o período de maior seca. Em média, a extração do óleo dura 150 dias.

“Como já receberam a vacina, os indígenas do povo Jamamadi estão se organizando para, de forma cautelosa, retomar a coleta e comercializar o produto”, informou Magno dos Santos, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN) em Lábrea (AM). Ele foi um dos responsáveis por, desde 2010, desenvolver um trabalho com os indígenas relacionado à extração balanceada do óleo de copaíba, que otimizou a preservação da biodiversidade e a qualidade do produto.

“Como já receberam a vacina, os indígenas do povo Jamamadi estão se organizando para, de forma cautelosa, retomar a coleta e comercializar o produto”, afirma Magno dos Santos.

A partir do acompanhamento da OPAN, passou a ser mais disseminada entre os indígenas uma técnica em que a copaibeira, após ser perfurada para a extração de seu óleo, é vedada com a própria madeira – evitando que o líquido continue a vazar. Dessa forma, em até três anos a árvore renova-se para fornecer o óleo novamente.

Segundo Magno, grupos de famílias, compostos por aproximadamente 50 pessoas, saem floresta adentro para coletar o material. Cada safra anual rende geralmente 50 toneladas de óleo, que são comercializados preferencialmente junto à Cooperativa Mista Agroextrativista Sardinha (Coopmas), em Lábrea.

Com o sucesso do produto, aumentou também a demanda, o que elevou o valor do óleo, saltando de R$ 10 para R$ 42 por quilo. O dinheiro é um complemento importante da renda das famílias. Com a pandemia e a proibição de ida às cidades, muitos grupos familiares se mudaram para regiões mais remotas e férteis da floresta, já que foi necessário intensificar o cultivo de alimentos. Não houve registro de óbitos ou casos graves por covid-19 entre o povo Jamamadi.

Com o sucesso do produto, aumentou também a demanda, o que elevou o valor do óleo, saltando de R$ 10 para R$ 42 por quilo. O dinheiro é um complemento da renda das famílias.

Xingu

Desde que surgiu em 2007, a cadeia de trocas e encomendas de sementes de árvores e outras plantas nativas das regiões do Xingu, Araguaia e Teles Pires ainda não havia passado por um momento tão delicado como no ano passado. Lideranças foram acometidas fatalmente pela covid-19 e as atividades, em muitas regiões, foram parcialmente ou totalmente interrompidas. Apesar do luto, restrições e incertezas, a Rede de Sementes do Xingu seguiu firme.

Em 2020, mesmo com a diminuição das encomendas, os grupos que compõem esse coletivo foram capazes de coletar 19 toneladas de 112 espécies de sementes nativas diferentes. Entre as espécies mais colhidas estão jatobá-da-mata, caju, pequi-do-xingu, cajazinho, urucum, tamboril, buriti, mamoninha, baru e copaíba.

Jatobá colhido pelas mulheres Xavante de Marãiwatsédé. Foto: Adriano Gambarini/OPAN.

Tariaup Kaiabi, um dos diretores da Rede e representante dos coletores indígenas, destacou que barreiras sanitárias foram realizadas e que até os sacos de sementes passavam por processos de higienização. “Todo o contato com os grupos de coletores era feito via rádio e aplicativos de bate-papo. Combinamos um dia para retirar os produtos dos locais de armazenamento, sempre de acordo com as medidas de proteção, com distanciamento, máscaras, luvas e álcool em gel”, enfatizou.

Kaiabi, que iniciou as atividades na Rede ainda em 2007 como coletor, conta que a estratégia de comunicação foi essencial para que os trabalhos não fossem totalmente interrompidos durante a pandemia.

Ele cita, porém, que um dos maiores desafios junto aos coletores foi lidar com o excesso de circulação de desinformação, sobretudo pelas redes sociais e aplicativos de bate-papo. Os conteúdos de viés negacionista colocavam em dúvida não apenas a existência da pandemia, como também a eficácia da vacina. “Passamos a gravar com frequência vídeos e áudios, para reforçar a importância em se adotar as medidas sanitárias e de prevenção recomendadas pelos órgãos de saúde”, detalha.

Segundo ele, quase todos os 530 coletores já receberam a segunda dose da vacina e a perspectiva é de que, em breve, seja possível intensificar as atividades, porém, com cautela.

Mais de 6,6 mil hectares de áreas degradadas na região da Bacia do Rio Xingu e Araguaia e outras regiões de Cerrado e Amazônia foram recuperados.

Ao todo, desde o início da Rede, a recuperação de mais de 6,6 mil hectares de áreas degradadas na região da Bacia do Rio Xingu e Araguaia e outras regiões de Cerrado e Amazônia foi viabilizada. Para isso, foram utilizadas 249 toneladas de sementes de mais de 220 espécies nativas. Compõem a Rede de Sementes do Xingu as mulheres indígenas Xavante de Marãiwatsédé, que desenvolvem trabalho em parceria com a OPAN. A iniciativa está registrada no filme Pi’õ rómnha ma’ubumrõi’wa: mulheres Xavante coletoras de sementes. Além de indígenas, a Rede também é formada por agricultores familiares.

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