20 de julho de 2021

Grupo de coletoras atua na TI Marãiwatsédé. Atividade fortalece tradição, promove reflorestamento e gera renda.

Helson França/OPAN

Em 2020, diante de um cenário pandêmico ainda repleto de incertezas, um coletivo de mulheres Xavante da Terra Indígena (TI) Marãiwatsédé se organizava para entender melhor como lidar com a mais nova ameaça que se apresentava em forma de vírus. A morte por covid-19 de uma de suas lideranças, Mônica Renhinhãi’õ, 25 dias antes de completar 100 anos, e de outros companheiros, reforçou a percepção de que a adoção de cuidados era necessária. Decidiram, então, que enfrentariam a situação por meio da continuidade da atividade que ajuda a manter o grupo unido: a coleta de sementes.

As mulheres costumam acampar na mata, durante o período de coleta das sementes. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Dessa forma, também honrariam a memória de Mônica, que trabalhava diariamente e ainda se destacava como uma das melhores coletoras, apesar da idade quase centenária.

“Sabíamos que seria desafiador. Redobramos a atenção e intensificamos os esforços. Uma sempre ajudando a outra”, afirmou a cacica Carolina Rewaptu. Há seis anos ela lidera o grupo das Mulheres Xavante Coletoras de Semente – Pi’õ rómnha ma’ubumrõi’wa, na língua original do povo.

A cacica Carolina é formada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Mato Grosso

Munidas com álcool em gel e máscaras, materiais que foram doados, as mulheres das oito aldeias que compõem o território foram à mata. 

O empenho do grupo foi recompensado e resultou numa coleta de 1.324 toneladas de sementes. Foram catalogadas 34 espécies, dentre elas o buriti, jatobá, caju, copaíba e pequi.

Do total, 294 kg foram destinados para o reflorestamento da TI, que teve 75% de sua vegetação nativa suprimida por áreas de pastagens, devido à presença de latifundiários.

Durante a Ditadura Militar, os Xavante foram expulsos de Marãiwatsédé. A retomada de seu local de origem demorou 53 anos, sendo efetivada em 2013, com a desintrusão dos invasores, sob determinação da Justiça Federal. Homologada pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a área de 165 mil hectares, localizada na região Nordeste de Mato Grosso, abriga hoje 1.108 indígenas, conforme dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Quase 300 quilos das sementes coletadas serão utilizadas para reflorestar o território, que foi devastado por latifundiários.

O restante do material coletado no ano passado foi separado pelas mulheres em garrafas de plástico, com etiquetas que levavam o nome da respectiva coletora, aldeia e espécie da semente. Indigenistas da Operação Amazônia Nativa (OPAN) fizeram o traslado dos produtos da TI para a Casa de Sementes, onde, depois da pesagem, foram estocados. 

As mulheres fizeram a coleta e a catalogação das sementes. A OPAN e a ARSX contribuíram para a comercialização dos grãos.

As sementes começaram a ser comercializadas neste mês, com o auxílio de equipes da OPAN. Ao todo, a coleta rendeu R$ 30 mil. O valor gerado no negócio é revertido integralmente às coletoras, sendo dividido e servindo como um importante complemento da renda.

Fortalecimento de relações

Entre as mulheres Xavante, a coleta de sementes é um costume que é passado de geração em geração. A atividade, assim, envolve todo um contexto de partilha e troca de saberes, que propicia o fortalecimento da cultura tradicional e relações, além de um maior conhecimento do território e seus recursos. Em seu estágio inicial, o grupo contava com 18 anciãs. Atualmente, integram o coletivo 90 mulheres, de diferentes idades.

A busca pelas sementes geralmente é dividida por famílias. As incursões podem durar dias e quando isso ocorre as coletoras acampam na mata. 

Todas as mulheres adultas do grupo, assim como o restante dos homens que vivem na TI Marãiwatsédé, já receberam a segunda dose da vacina contra a covid-19.

Em Mato Grosso, os Xavante foram o povo mais afetado pela pandemia. Dados do Comitê Nacional de Vida e Memória Indígena, vinculado à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), contabilizam até o momento 79 óbitos.

Voz ativa

Formada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), a cacica Carolina também é professora na aldeia. Em suas aulas, como também nos demais momentos de interação, procura estimular alunos e companheiras à reflexão sobre o papel da mulher no ambiente indígena e fora dele.

“Nós (as mulheres) temos participado mais de espaços antes ocupados apenas por homens, como reuniões para a tomada de decisões. Porém, ainda há muito o que avançar”, diz.

Carolina tem quatro filhos e uma filha. “É preciso incentivar os mais jovens desde cedo, sobretudo as meninas, à busca por conhecimento, para que tenham voz ativa”, observou.

Um dos filhos da cacica, Cosme Rité, é mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB). Sua dissertação, defendida em 2017, abordou sobre a reocupação de Marãiwatsédé por seu povo.

“Os fazendeiros que ocuparam o nosso território pensam em um tipo de produção, destruíram os rios, as matas. (…) Reocupamos a terra, mas não havia mais nada do que existia antes. Agora, iremos cuidar da terra para que ela possa cuidar da gente, com o que ela nos oferece, com suas plantas, alimentos, tintas, caça, pesca”, pontua Cosme, em trecho do trabalho.

A recuperação do território é uma grande preocupação do povo Xavante Foto: Funai/Acervo

Grupo bem estruturado

Desde o seu início, o grupo das Mulheres Xavante Coletoras de Sementes vem se estruturando. Para este ano, a expectativa é de que o comércio supere duas toneladas e gere um retorno de R$ 40 mil, conta Elizabete Carolina Pinheiro Zaratim, indigenista da OPAN. 

Ela é uma das responsáveis em administrar os pedidos repassados ao grupo, além de auxiliar no suporte às coletoras e no processo de venda das sementes. Elizabete explica que grande parte dos compradores são fazendeiros, obrigados por lei a reflorestar uma área degradada.

A atividade ainda permite às coletoras trazer os grãos de espécies alimentícias para serem cultivados em locais mais próximos às aldeias em que vivem, o que contribui para o enriquecimento da dieta alimentar das famílias. A desnutrição infantil em Marãiwatsédé, que em 2013 chegou a atingir índices alarmantes (80% das crianças), hoje encontra-se praticamente erradicada, detalha Elizabete.

Desde o início dos trabalhos até o momento, 5.524 toneladas de sementes foram coletadas.

O grupo integra a Rede de Sementes do Xingu (ARSX), cadeia de trocas e encomendas que, além do Xingu, engloba as regiões do Araguaia e Teles Pires.

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