19 de novembro de 2021

A escassez de alimentos tradicionais, a contaminação das águas e as consequentes mudanças nas paisagens foram alguns dos impactos produzidos pelos venenos usados na cadeia produtiva do algodão, segundo relatos das comunidades.

O ponto de vista dos povos que vivem na bacia do Juruena sobre a contaminação por agrotóxicos e suas consequências foi o objeto de pesquisa realizada pela antropóloga da Operação Amazônia Nativa (OPAN) Adriana Werneck Regina. Nos dois últimos anos, 2020 e 2021, a indigenista reuniu e analisou relatos de moradores das Terras Indígenas (TIs) Tirecatinga e Menkü, localizadas na cidade de Sapezal, noroeste de Mato Grosso. O estudo demonstrou que os moradores das comunidades tradicionais associam a diminuição de frutas – como o caju do mato e, sobretudo, o pequi – à contaminação por agrotóxicos utilizados em lavouras de algodão próximas às aldeias. Além disso, as prováveis contaminações de rios, córregos e poços artesianos, bem como a interferência na polinização de abelhas e o desaparecimento de plantas medicinais, foram preocupações trazidas pelas comunidades. 

Indígenas dos povos Paresi, Rikbaktsa, Manoki, Myky e Nambiquara, que habitam a bacia do Juruena, participaram do estudo. Em meio à pandemia, os relatos foram colhidos através de conversas virtuais. A pesquisa também utilizou conteúdos de relatórios técnicos do acervo da OPAN, que já registraram a percepção de indígenas sobre os efeitos nocivos dos agrotóxicos em suas terras. Pessoas dos povos indígenas Terena, Wakalitesu, das TIs Ponte de Pedra, Utiariti, Rio Formoso (do povo Paresi), Escondido, Erikpatsa, Japuíra (do povo Rikbaktsa), Irantxe e Menkü, dos povos que levam os mesmos nomes, também integram percepções no documento.

A iniciativa deste estudo parte do desenvolvimento do projeto “Do Campo ao Corpo”, em que a OPAN e o Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (NEAST) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) são parceiras. De acordo com a autora da pesquisa, Adriana Werneck Regina, a percepção dos indígenas permite que pontos de vista diferentes dos já abordados por pesquisadores sejam conhecidos. “Quando perguntamos a eles como é produzido um corpo forte, a resposta tem a ver com as regras de alimentação, com as orientações que fazem parte da educação. São regras que indicam o que uma criança deve comer, um jovem, um adulto, ou o que um velho deve comer”. 

Nessa linha o estudo destaca que “para os indígenas, a frente de expansão do agronegócio, associada ao desmatamento em larga escala, está ligada ao empobrecimento da produção tradicional de alimentos e à alteração dos padrões alimentares dos animais, peixes e humanos, em que a contaminação por agrotóxicos acontece.”    

A redução de peixes nos rios da bacia do Juruena é outro alerta trazido no documento. No olhar dos povos indígenas, essa redução está intimamente ligada à pulverização de agrotóxicos que ocorre no período da piracema, quando os peixes botam ovos. Ambas acontecem na época das chuvas. 

Com isso, a incidência de veneno sobre os rios impede a reprodução de peixes, conforme declara no estudo um indígena do povo Rikbaktsa. “O peixe está diminuindo cada vez mais no rio do Sangue, no rio Arinos e também no rio Juruena, pois, justamente na época da piracema, época das chuvas, é que os fazendeiros pulverizam as plantações com veneno, que corre para o rios, para as cabeceiras, matando os ovos recém postos.” O estudo lembra que até mesmo a alimentação dos peixes está causando desequilíbrios, a exemplo da prática de jogar soja nas águas, para realizar a ceva. A estratégia tem causado a mortandade de algumas espécies, entre elas o pacu. Outros animais também são intoxicados, como porcos e abelhas.

As intervenções do agronegócio acabaram provocando um efeito inverso, com o aumento de pragas e reprodução desordenada de algumas espécies de animais, o que desequilibra a paisagem, como aponta o enunciado de um cacique da TI Erikpatsa no relatório. “Devido às essas lavouras, as capivaras se multiplicaram muito e atacam as roças. Não se pode mais plantar na beira do rio, pois elas não deixam crescer nada”.

Além dos impactos sentidos no meio ambiente, os agrotóxicos afetam a saúde dos moradores das comunidades. Sintomas como a diarréia já são sentidos pelos indígenas, como avalia outra liderança do povo Nambiquara, moradora da TI Tirecatinga. “O rio grande não está bom, não. Quando toma água dá dor de barriga e diarreia. Porque, antigamente, na história era muito importante a lagoa, mas agora está cheio de agrotóxico. Não tem água boa. Não tem onde beber, então, eu bebo obrigado e com isso ficamos doentes”. O levantamento chama a atenção para a expressão “bebo obrigado”, que revela a condição de “uma vulnerabilidade que não foi construída pelas comunidades indígenas.” 

As consequências das substâncias na produção da abundância de alimentos para as festas e para o dia a dia ainda é lembrada no estudo, que revela impactos de caráter social e cultural na vida dos povos indígenas, já que o alimento muitas vezes é considerado também um bem cultural dos povos tradicionais.  

Desta forma, conclui-se que o uso de agrotóxicos praticado nas grandes fazendas instaladas no entorno das terras indígenas prejudica ainda as próprias relações dos indígenas com os animais, os peixes, as frutas, a agricultura e as águas, instituindo a escassez na alimentação e colocando em risco a segurança alimentar. 

O relatório constata que a percepção indígena põe em evidência o vínculo umbilical entre corpo e território, em que um não está dissociado de outro. “E para as pessoas dos diferentes povos, falar sobre as mudanças da paisagem significa relembrar dos lugares vividos pelas gerações antigas, em que a riqueza os qualificava, cuja memória permanece nesses corpos, reatualizado que a bacia do Juruena continua sendo a referência de como era bom antes”, conclui o relatório.

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