27 de janeiro de 2022

Destaque na luta pelo território Tapayuna, Ngaimotxi Kajkwakratxi morreu aos 76 anos na cidade de Querência (MT)

Reconhecida por ser um dos principais expoentes da luta territorial do povo Tapayuna – ou Kajkwakratxi como se autodenominam – em Mato Grosso, a anciã Ngaimotxi Kajkwakratxi faleceu ontem (26), aos 76 anos, no Hospital Municipal de Querência, onde estava internada. A causa da morte foi uma parada cardíaca e Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI).

Ngaimotxi sobreviveu a um cenário de invasões, grilagens, mineração e empreendimentos diversos em seu território, que provocou a morte de diversos indígenas Tapayuna na segunda metade do século XX. A população Tapayuna soma hoje cerca de 160 indivíduos, considerando filhos de casamentos com os Mebêngôkre e Kĩsêdjê, com os quais vivem nas terras indígenas Capoto Jarina e Wawi, ambas em Mato Grosso, de acordo com informações do Instituto Homem Brasileiro (IHB), que acompanha os Tapayuna.

“Ngaimotxi é mulher resiliente, é desta terra, originária do Brasil, sobrevivente do Território imemorial dos Kajkwakratxi, localizado na bacia do rio Arinos, tributário da margem direita do rio Juruena que deságua no Tapajós. Ngaimotxi era livro vivo de sabedorias atemporais dos Kajkwakratxi em seu Território ancestral, até hoje não demarcado e ameaçado por invasões, grilagens, mineração, empreendimentos diversos”, diz um trecho da postagem de Gabriele Viega Garcia, arqueóloga e presidenta do IHB.

Segundo o instituto, Ngaimotxi cresceu na aldeia Huitarekô, próxima do córrego Huaré, até que foi obrigada a sair e vivenciou o genocídio de seu povo, quase extinto após dois envenenamentos nas décadas de 1950 e 1960. Os Tapayuna ainda sobreviveram a uma epidemia de gripe em 1970, ocasionada após uma expedição da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Apenas 41 pessoas sobreviveram no território localizado no noroeste do estado, na região da bacia do rio Arinos, perto do município de Diamantino, há 180 quilômetros de Cuiabá.

Com o decreto federal 77.790 de 1976, a Reserva Indígena Tapayuna (demarcada em 1968) foi extinta. Segundo o IHB, “os poucos sobreviventes foram realocados para o Território Indígena do Xingu e lá viveram até meados dos anos 80.”

Posteriormente, algumas famílias conseguiram fundar uma aldeia própria na Terra Indígena Wawi, onde Ngaimotxi vivia. “Os Tapayuna resistiram e vivem um processo de reemergência e fortalecimento como povo. Eles lutam por autonomia e pela retomada do território tradicional. Ngaimotxi Kajkwakratxi foi uma das protagonistas desta reorganização”, registra a instituição. 
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