28 de junho de 2022

Projeto propõe imersão cultural de uma semana em aldeias com exuberantes paisagens.

Vivenciar por alguns dias o modo de vida de uma comunidade indígena, conhecer aldeias, cachoeiras, histórias míticas, lugares sagrados, jogos tradicionais e cenários deslumbrantes em uma das regiões com maior diversidade de paisagens do mundo. Esta é a proposta de etnoturismo do povo Haliti-Paresi (MT), que está se preparando para receber viajantes em expedições experimentais que visam estruturar o turismo de base comunitária nas terras indígenas.

Os interessados podem realizar a pré-inscrição no site do projeto, onde também há informações detalhadas sobre os dois roteiros disponíveis, bem como datas e valores. Cada roteiro prevê a experiência de uma semana nas Terras Indígenas Utiariti e Rio Formoso, sedes das associações Waymaré e Halitinã, nos municípios de Campo Novo do Parecis e Tangará da Serra-MT – região entre Amazônia, Cerrado e as nascentes do Pantanal. 

O etnoturismo é uma das diretrizes do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Haliti-Paresi, publicado em 2019. As famílias viram no turismo uma oportunidade essencial de valorização da cultura tradicional e fonte de renda. “A importância é mostrar ao mahalitihyarenae (não indígena) que o indígena não é como ele pensa. É importante que conheça como somos, vivemos e pensamos”, explica Rony Walter Azoinayce, cacique da aldeia Wazare.

TURISMO DE IMERSÃO

Em algumas aldeias, o turismo já é uma realidade há anos. Porém, com a crescente procura por passeios nas cachoeiras, tornou-se necessário estruturar a atividade. A ideia é atingir um público que busca, para além dos atrativos naturais, uma imersão e permanência de mais tempo no território, daí a opção pelo turismo de base comunitária. 

Trata-se de uma prática que colabora com a proteção do meio ambiente e com a melhoria de vida das pessoas e a economia do lugar onde é praticada. A principal atração turística, neste contexto, é a própria possibilidade de imersão no modo de vida da comunidade. Aliás, experiências de turismo indígena demonstram a indissociabilidade entre natureza e cultura, ou seja, entre eco e etnoturismo.

Neste sentido, os visitantes ficarão hospedados nas hati (casas tradicionais) ou em locais para acampamento. As refeições serão elaboradas com ingredientes locais, combinando receitas tradicionais e regionais. Haverá momentos para apresentar o modo de vida Haliti-Paresi por meio de exposições, conversas e atividades. Também estão previstas rodas de conversa de avaliação das vivências, para que todos possam compartilhar suas observações e sugestões.

Além dos anfitriões indígenas, também estará presente um facilitador, que irá acompanhar os visitantes durante toda a expedição. Ele auxiliará na mediação entre o grupo e as lideranças e costumes locais, além de dar dicas sobre a programação e ajudar na preparação das atividades.

Caso alguém queira levar uma lembrança material desta experiência, poderão ser adquiridas peças de artesanato, contribuindo com a geração de renda local. E as exuberantes artes plumárias e pinturas corporais, elementos fundamentais da cultura Haliti-Paresi, também poderão ser experimentadas pelos visitantes. 

As aldeias têm energia elétrica, banheiros e estrutura de lazer e descanso. Não há sinal de celular, mas para emergências é possível utilizar a conexão wi-fi das escolas. As expedições experimentais são iniciativas no âmbito das ações estratégicas para a estruturação do turismo nas Terras Indígenas Haliti-Paresi, por meio da parceria com a The Nature Conservancy (TNC) e Operação Amazônia Nativa (OPAN) e com consultoria da ONG Garupa.

HALITI-PARESI

De acordo com dados do Instituto Socioambiental (2008), o povo Paresi (autodenominação Haliti) é um grupo com pouco mais de 2 mil pessoas. Eles falam uma língua da família Arawak, cujo representante mais próximo é o Enawenê-Nawê, falado em território mais ao norte. Os vizinhos mais próximos são os Nambikwara (família Nambikwara) em áreas indígenas ao norte e sudoeste da porção Paresi.

Segundo a tradição Haliti, a humanidade surgiu quando um grupo de irmãos saiu do interior da terra, por uma fenda aberta por Toakaihoreenoharetse, Enorê (criador e Deus do Raio) na Ponte de Pedra, formação natural existente no rio Sucuriu-Winã, afluente do rio Arinos. Ao sair do interior da pedra onde viviam, descobriram o mundo externo e todos os rios, animais terrestres, pássaros, árvores e paisagens. 

Assim como no mito de criação, a história do povo Haliti-Paresi é marcada por encontros com o “mundo exterior”, desde a passagem com os bandeirantes até o encontro com a Operação Rondon. Eles sempre tiveram que articular com estes “mundos” para se manterem em suas terras – o etnoturismo é mais uma das estratégias encontradas neste sentido.

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