01 de setembro de 2022

Maior festival de música do mundo terá palco demarcado pela resistência indígena. Nos bastidores, grupo vai trazer mensagem especial sobre os isolados, indígenas que rejeitam contato com o restante da sociedade.

“A gente nunca pensou que a nossa música atravessaria o nosso território. Agora, estamos no Rock in Rio. Isso é um sonho pra gente, mas também é uma retomada”, conta Bruno, integrante e criador do Brô Mc’s, primeiro grupo musical indígena a pisar no festival Rock in Rio. Eles se apresentam no próximo sábado (03.09), no palco Sunset, a convite do artista e rapper carioca, Xamã. 

A realidade dos integrantes do Brô, Bruno Vn, Tio Creb, Kelvin Mbaretê e CH, é o retrato real da pressão do agronegócio sobre as terras indígenas. Eles moram nas aldeias Bororo e Jaguapiru, quase que engolidos por grandes fazendas monocultoras situadas no município de Dourados, em Mato Grosso do Sul, a 235 quilômetros de Campo Grande. 

Os artistas vivem em pequenos terrenos, encurralados pelo mar de fazendas do agronegócio que rodeiam a reserva Francisco Horta Barbosa, sobreposta às suas aldeias. Com pouco mais de 3,5 mil hectares, a reserva conta com a maior quantidade populacional indígena por metro quadrado no país, e chega a abrigar aproximadamente 20 mil indígenas dos povos Terena, Guarani e Kaiowá

Essa condição é a prova viva da contradição dos discursos presidenciais de Bolsonaro: nessa reserva, visivelmente “é muito índio pra pouca terra”. A alta densidade populacional nas aldeias, o preconceito e a violência vivenciados pelos indígenas têm reflexo direto  em uma taxa de suicídio três vezes maior do que a média nacional.

Foi por viverem imersos nessa cena de conflito e morte, que Bruno começou a se identificar com o Rap.  Em 2007, ainda criança, se sentiu atraído por um programa de rádio chamado “Ritmos na Batida”, que vez ou outra tocava rap, ritmo até então desconhecido e que logo ganhou atenção da aldeia. O flow de protesto cativou Bruno, que logo começou a se expressar, cantar e compor com seu irmão, Clemerson. 

Impulsionados por um professor, eles começaram timidamente a se apresentar  em escolas e outros pequenos espaços culturais de Dourados e, finalmente, em 2009, Kelvin e Charlie também se integraram e eles decidiram criar o primeiro grupo de rap indígena do Brasil. “Brô” é uma gíria comum entre os jovens da região e faz referência a palavra em inglês “brother”, que significa irmão, e deu o nome ao grupo.

Foto: João Albuquerque/Dzawi Filmes /ISA

“Eu entendi que essa era a minha forma para lutar em defesa da retomada do meu território sagrado. Eu me identificava com a raiva e indignação dos Racionais Mc’s, entendia que o que eles cantavam ali era fruto da injustiça. O que vivemos aqui é isso também [injustiça], por isso decidimos cantar”, diz Bruno.

Em suas letras – cantadas majoritariamente em guarani e Kaiowá – os Brô’s entoam e denunciam as consequências do empobrecimento cíclico ao qual seu povo foi condicionado, falam para os “seus” sobre o confinamento humano no espaço em que vivem, alertam sobre pressão e falta de oportunidade para os indígenas dessa região e reforçam suas ancestralidades e a importância das suas casas de reza. Além da angústia e da denúncia das injustiças que os indígenas vivem, o Brô’s também anuncia a luta e resistência do seu povo através das retomadas.

“Não é só uma questão política, as retomadas são um último suspiro para que a vida continue a existir. Não temos espaço para plantar, sofremos preconceito aqui. Estamos retomando nossas terras para viver”, explica Kelvin.

O movimento de reapropriação das terras ancestrais por parte dos indígenas Guarani e Kaiowá está se fortalecendo nos últimos anos e é uma  forma que eles encontraram de reivindicar seus territórios que foram roubados pelo lobby do agronegócio. As chamadas retomadas, que começaram a emergir nos anos 80 e prosseguem até hoje, buscam a ocupação dos territórios que lhes foram suprimidos. Em Mato Grosso do Sul, somente este ano, são 70 retomadas, que configuram uma zona de conflito direto de ruralistas contra os indígenas da região. 

As casas de sapé, vistas de longe, representam o símbolo da resistência do povo Guarani e Kaiowá: a reza. Ali, as casas de reza cobertas de palha são instrumento de luta e existência. Clemerson explica que o gesto da reza simboliza seu povo. “Não temos armas para combater os helicópteros que bombardeiam injustamente as nossas retomadas, temos a reza, única defesa desse povo”. Retomada também será o título do álbum que o grupo divulgará em breve.

 Retomada e demarcação dos artistas indígenas

Após 13 anos de existência, o grupo ainda cria suas músicas em um espaço improvisado, construído pelo pai de Bruno e Clemerson. Ali, naquele quarto que se transformou em um estúdio, o grupo compõe, grava e difunde seu som de maneira independente. 

A produção das músicas, em sua maioria, é feita de ponta-a-ponta pelo grupo, que, além de compor, realiza a gravação e mixagem de todas as suas composições. Apesar dos equipamentos de baixo custo, eles conseguem atingir um nível de qualidade sonora que impressiona seus parceiros. 

Com apoio do cantor e DJ Alok, está em construção o estúdio e a produção do segundo disco oficial do grupo, previsto para lançamento em breve. A estrutura desse estúdio pretende apoiar outros rappers indígenas na produção musical. 

Frente a tantas mudanças, os Brô’s atravessaram o seu território e agora estão a caminho do Rock in Rio e muitos outros palcos virão. Após 37 anos de festival, que foi fundamental na consolidação de grandes nomes nacionais e internacionais, tornando-se parte da história e da cultura do nosso país, somente agora se reconhece a importância da presença indígena nesse espaço. 

É com esperança de visibilidade que os Brô Mc’s chegam ao palco e tomam, em retomada, a cena artística do país. “Eu falei que um dia a gente ia subir e retomar aquele palco do Rock in Rio. Eu chamo de retomada porque estamos tomando o espaço como artista indígena, você não vê artistas indígenas em grandes palcos. Estamos fazendo a retomada, abrindo caminho para que outros artistas indígenas possam também estar nesse espaço e em outros, não vamos mais deixar de retomar”, comentou Bruno.

Brô’s denunciam pressão aos Isolados

Making-of de gravação para a campanha “Isolados ou Dizimados”. Grupo gravou música em defesa dos parentes isolados – Foto: João Albuquerque/Dzawi Filmes /ISA

O Brô, além de demarcar espaços em grandes palcos de disputa artística internacional, como o Rock in Rio, também atua em outras frentes para alertar a sociedade sobre a condição dos povos indígenas no Brasil. Em breve, o grupo lançará, junto à campanha isolados ou dizimados, uma música em defesa dos parentes isolados. O Chamado dos Isolados é uma produção que contará com uma música de autoria própria do grupo em parceria com a comunicadora Lídia Guajajara para alertar a sociedade sobre a atual condição dos povos indígenas que vivem em isolamento.

“Pra gente, compor e fazer parte da campanha é fortalecer a luta dos povos indígenas e fazer com que as pessoas conheçam a importância dos nossos parentes isolados”, disse CH.

A campanha “#IsoladosOuDizimados” alerta para o risco que povos indígenas isolados de quatro áreas diferentes no país correm, caso o governo federal não tome providências legais para a proteção desses territórios.

Em  dezembro de 2022, as TIs Pirititi (RR), Jacareúba-Katawixi (AM), Piripikura (MT) estarão desprotegidas, pois os dispositivos que garantem sua sobrevivência, as Portarias de Restrição de Uso, irão vencer. 
A campanha, assinada pela  coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi), têm o objetivo de recolher assinaturas através de uma petição para pressionar a Funai a renovar as portarias e avançar com os processos de demarcação definitiva dos territórios. Acesse a petição e ajude a proteger esses povos e seus territórios.

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