02 de dezembro de 2022

Foram selecionadas duas produções audiovisuais do Coletivo Ijã Mytyli de Cinema Manoki e Myky e uma do povo Enawenê-Nawê

Por Túlio Paniago/OPAN

A programação do 1º Festival de Cinema e Cultura Indígena (FeCCI) começa nesta sexta-feira (2) e segue até o dia 11 de dezembro. Durante dez dias de evento, serão exibidos 45 filmes com temáticas indígenas e protagonizados por mais de 35 povos das cinco regiões do país. Dentre as produções selecionadas, três são de povos da bacia do Juruena, região noroeste de Mato Grosso onde vivem mais de dez povos indígenas.

O Coletivo Ijã Mytyli de Cinema Manoki e Myky – que já produziu 13 filmes ao longo de pouco mais de uma década de existência – teve dois trabalhos selecionados: “Ãjãí: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki”, de Typju Myky e André Lopes; e “Os espíritos só entendem nossa idioma”, de Cileuza Jemjusi, Robert Tamuxi e Valdeilson Jolasi. E a terceira obra selecionada foi “Rituais do povo indígena Enawenê-nawê”, de Iholalare Wayali Enawenê-Nawê.

A programação conta com uma Mostra Competitiva (10 filmes), uma Mostra Paralela (20 filmes) e uma Mostra de Convidados (15 filmes). Dos três selecionados da região do Juruena, o média-metragem “Ãjãí: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki” figura na Mostra Competitiva e os outros dois curtas compõem a Mostra Paralela.

Cartaz do filme “Ãjãí: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki”

O Ãjãí é um jogo em que somente a cabeça dos jogadores pode encostar na bola. Essa prática, compartilhada por poucos povos indígenas no mundo, está presente entre as populações Myky e Manoki. O filme foi gravado na aldeia Japuíra durante os preparativos para a festa na qual o jogo é praticado. As gravações começaram em 2016 e o documentário foi concluído em 2019.

“É sobre os preparativos do povo Miki, sobre como é organizada a festa cultural e como que a gente joga bola de cabeça. Também tem os Manoki que vêm das aldeias deles para participar da festa. E tem os mais velhos que estão no filme e que não estão mais aqui na Terra, que já se foram, mas deixaram as imagens, deixaram as falas na língua, repassando essa sabedoria para nós. Eles deixaram muitas saudades”, revela Typju Myky, idealizador do coletivo de cinema e que já recebeu alguns prêmios pelo documentário.

A segunda produção selecionada do coletivo, intitulada “Os espíritos só entendem o nosso idioma”, trata de dois elementos culturais interligados, a língua e a espiritualidade. Atualmente, apenas cinco anciões da população Manoki na Amazônia brasileira falam o idioma materno, um risco iminente de perderem o meio pelo qual se comunicam com seus espíritos. A luta e a esperança ecoam em várias dimensões do curta-metragem, indicando que a língua manoki sobreviverá. Todos os três diretores são jovens lideranças da aldeia Paredão.

Cartaz do filme “Os espíritos só entendem nossa idioma”

O Coletivo Ijã Mytyli de Cinema Manoki e Myky reúne jovens realizadores dos povos indígenas Manoki e Myky. Ijã significa tanto história como caminho. Mytyli ou Myty’i significa novo ou jovem. “Toda história atravessa um caminho e todo caminho conta uma história. É uma outra forma de se contar histórias e se traçar caminhos feita em sua maioria por jovens, através de uma ferramenta de comunicação que é o cinema, guiado pela trajetória de nossos ancestrais”, explica Typju Myky.

Já o terceiro filme selecionado da região da bacia do Juruena é centrado em dois rituais sagrados dos Enawenê-nawê. Ao apresentar registros dos rituais Iyãokwa e o Kateoko, o curta revela aspectos da cultura e sua relação com a espiritualidade. 

“Todo ritual é realizado para que os espíritos celestiais e subterrâneos fiquem felizes com nosso povo. A gente faz ritual para os espíritos, não para nós. Se a gente não realizar esse ritual, dá problema para nós. Quero que o mundo inteiro saiba dos nossos rituais, por isso produzi esse vídeo”, comenta Iholalare Wayali.

Aos que não puderem comparecer, os filmes exibidos nas mostras Paralela e Competitiva também poderão ser assistidos na Mostra Online pela plataforma @innsaei.tv. Os filmes da Mostra Paralela estarão disponíveis de 02 a 11 de dezembro e os da Mostra Competitiva nos dias 09 e 10.

Festival de Cinema e Cultura Indígena 

Idealizado pelo mato-grossense Takumã Kuikuro, um dos cineastas com mais destaque de sua geração, o FeCCI é focado na produção audiovisual de cineastas, coletivos e realizadores de origem indígena, promovendo, fortalecendo e difundindo as variadas culturas e cinemas dos mais de 305 povos indígenas do país. O tema deste ano é “Como você cuida da sua aldeia?”.

“Esse tema pretende refletir sobre o cuidado e a regeneração como elementos éticos da relação com o espaço em que vivemos e procura indagar aos visitantes da mostra sobre como coexistir no mundo de hoje, criar possibilidade de relação com o humano e o não humano e a como incentivar outras potências de viver”, destaca Takumã, que vive na aldeia Ipatse, no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. 

O festival contribui para a difusão tanto das obras cinematográficas como das  cosmovisões dos povos indígenas do Brasil, fomentando a produção audiovisual nacional. “É importante porque nos fortalece para continuar a produzir filmes, contando nossas próprias histórias, nossas narrativas, e para mostrar ao mundo envolvente que a gente tem essa capacidade de produzir e dirigir filmes”, pontua Typju Myky.

As obras selecionadas receberão cachê e os filmes vencedores da Mostra Competitiva serão premiados nas categorias: Melhor Filme pelo Júri Técnico e Melhor Filme do Júri Popular. E, ainda, concorrerão ao troféu Tamakahi nas categorias: Melhor Roteiro, Melhor Direção e Melhor Fotografia.

Além da programação de filmes, o festival ainda contará com atividades formativas, como masterclasses e rodas de conversas com diretores, cineastas e parceiros aliados à produção indígena, como Fernando Meirelles, Luiz Bolognesi, Aurélio Michiles e Vicent Carelli, além da ativista Txai Suruí, produtora-executiva do filme “O Território”, também presente no festival. 

A primeira edição do FeCCI é realizada pela produtora brasiliense “A Terrestre” com recursos da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF). O evento também conta com o apoio de Mídia Índia, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Instituto Alok, O2 Filmes, Bidou Pictures Brasil, Associação Cultural de Realizadores Indígenas (Ascuri), Instituto Família do Alto Xingu (Ifax), Gullane Entretenimento, Pindorama Filmes, Paradiso Multiplica, Prefeitura de Querência (MT) e Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT).

Dias e horários de exibições dos filmes:

Ãjãí: o jogo de cabeça dos Myky e Manoki (48’, 2019, Typju Myky e André Tupxi Lopes) – 14h do dia 10 de dezembro no Cine Brasília – Mostra Competitiva

Os espíritos só entendem o nosso idioma (5’, 2019, Cileuza Jemjusi, Robert Tamuxi e Valdeilson Jolasi | Realização: Coletivo Ijã Mytyli de Cinema Manoki e Myky / LISA-USP) – 14h do dia 3 de dezembro no Cine Brasília – Mostra Paralela 

Rituais do povo indígena Enawenê-nawê (10’, 2021, Iholalare Wayali Enawenê-nawê) – 16h do dia 07 de dezembro no Cine Brasília – Mostra Paralela

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