Contra a Covid-19, ciência, criatividade e cultura

Além do isolamento social, os povos indígenas têm se voltado a seus territórios, criado barreiras sanitárias e adotado tratamentos naturais próprios para conter o avanço da doença

Por Beatriz Ramos/OPAN com colaboração de Tarsila Menezes/OPAN.

O bloqueio de estradas, a proibição de jogos de futebol e o incremento na tradução de materiais para línguas indígenas são algumas das medidas que se tornaram rotina em grande parte das aldeias nos mais de 70 dias que marcam o avanço do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil.

Em meio à pandemia e à pouca proteção oferecida pelos órgãos públicos, o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, formado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), já contabilizou 1.471 casos de infecção e 149 mortes, entre indígenas, além de 75 povos já atingidos pela doença até o dia 28 de maio. Com isso, iniciativas próprias para coibir a circulação de pessoas dentro e fora das aldeias e garantir o isolamento nas comunidades viraram uma questão de sobrevivência e já são realidade em muitos territórios.

Na Terra Indígena (TI) Capoto/Jarina, em Mato Grosso, Orengo Tapayuna conta que a quarentena na aldeia Kawêrêtxikô já dura dois meses e, para evitar as idas para as cidades mais próximas, Peixoto de Azevedo e São José do Xingu, os indígenas recebem alimentos e utensílios de higiene por meio de entregas.

“Ninguém está saindo para a cidade, o Instituto Raoni está mandando as mercadorias pela balsa. Nós também estamos fazendo a roça, caça e pesca para nos alimentarmos. Decidimos em reunião que neste ano não irão entrar estudantes nas aldeias. Se nós não nos prevenirmos, vamos acabar transmitindo a doença”, explica Orengo.

Crianças da etnia Tapayuna, na aldeia Kowareteiku. (Foto: Orengo Tapayuna).

A preocupação também ronda a comunidade indígena Nova Esperança, onde estão indígenas da etnia Kokama, na zona rural de Manaus. Para a professora Altaci Rubim, lá o cenário é grave porque faltam leitos nos hospitais da região e as aglomerações ainda acontecem com o estímulo de igrejas.

“As pessoas têm medo de ir ao hospital, pois muita gente está morrendo nos corredores por falta de atendimento médico. No Amazonas, já faleceram 45 indígenas Kokama. Eles estão se tratando em casa, passam por todas as fases da doença com remédios caseiros, evitando a ida para os hospitais. Além disso, muitas igrejas vão às aldeias, ocasionam aglomeração e atendem ao discurso do governo de que a Covid-19 é apenas uma gripe”, lamenta Altaci.

Os Kokama estão recebendo alimentos e auxílio da Cruz Vermelha. (Foto: AKIM- Associação dos indígenas Kokama residentes em Manaus).

Como parte dos Kokama estão situados em áreas consideradas urbanas, nos municípios de Tabatinga e Santo Antônio do Içá e também em Manaus, muitos infectados e mortos por Covid-19 não são reconhecidos como indígenas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). É o que define a Portaria nº 70, do Ministério da Saúde, desde 2004. 

Com a morte presente nas aldeias, os Kokama já traçam estratégias de tratamento dos doentes. “Estão sendo feitos remédios caseiros com plantas medicinais. Nós temos o chapu, feito da banana verde assada e amassada. Ele ajuda a pessoa a recuperar o paladar, nos estágios iniciais da doença. Além dos chás medicinais, são feitos os ikarus, rezas e cantos para afastar esse mal”, diz a professora Kokama.

Na Terra Indígena Tereza Cristina, em Mato Grosso, os indígenas da etnia Boe Bororo estão atentos aos perigos da circulação na cidade de Rondonópolis e cancelaram suas festas. Mas os rituais funerários ainda preocupam, como explica a cacique Luciene Jakomearegecebado. “Estamos tomando todos os cuidados de higiene. Dentro da aldeia não temos nenhuma prática que nos coloca em risco, até porque o pessoal fica no isolamento social. Só que tem o ritual do funeral. Acredito que isso seja um risco, pois usamos alimentos para fazer oferendas. Fora isso, cancelamos todas as festas. Colocamos um portão na entrada da aldeia para evitar o acesso de não indígenas. Entra somente o pessoal da saúde”, relata. 

A divulgação de informações também tem sido cada vez mais importante na conscientização dos perigos do novo coronavírus. Na Terra Indígena Utiariti, também em Mato Grosso, foi criado um Protocolo de Contingência pela etnia Paresi, em que estão descritas  instruções de prevenção à doença. O documento foi pensado, sobretudo, para os  indígenas que trabalham nas atividades de turismo, nas lavouras mecanizadas e no pedágio. 

Selma Paresi, da aldeia Wazare, que é agente de saúde indígena, conta que a conscientização tem sido um desafio superado com a ajuda dos mais jovens. “Membros das cooperativas, associações e conselho de saúde irão passar nas aldeias distribuindo o protocolo e dando orientações. Nas aldeias mais distantes, onde há pouco acesso à televisão e internet, são os jovens que sabem sobre a Covid-19 e estão instruindo os idosos”, ressalta. 

A agente de saúde ainda diz que, caso ocorra uma morte por coronavírus, o enterro não poderá ser feito dentro da aldeia, o que representa uma mudança cultural para os Paresi. “Nós, da saúde, estamos orientando que a pessoa não poderá ser enterrada dentro de casa. Muitos não entendem, isso mexe muito com a nossa cultura”.

Aprendizados durante a quarentena indígena 

Na TI Morro dos Cavalos, em Santa Catarina, os moradores organizaram uma equipe interna para realizar as compras. (Foto: Conexão Itaty).

O isolamento social dentro das terras indígenas também tem sido marcado por redescobertas. Esse é o caso da Terra Indígena Pirineus de Souza, no município de Comodoro (MT), como descreve Erivelton Tawandê. “Estamos vivenciando o tempo de anos atrás, muito tempo, em que nós não tínhamos contato com a cidade e ficávamos vivendo a cultura, nossas atividades só na aldeia. Está tudo normal e ficou mais tranquilo para fazermos nossas atividades de caça de pesca, principalmente para nós, que somos servidores, e ficávamos na cidade. A gente consegue percorrer o território e isso está sendo muito legal pra nós”.

Em Santa Catarina, na Terra Indígena Morro dos Cavalos, no município de Palhoça, os indígenas estão conscientes da situação sanitária do país e enfrentam o momento garantindo a circulação de informações sobre a Covid-19 por meio de grupos de WhatsApp. Os moradores cancelaram as partidas de futebol e também fazem uso dos chás medicinais.

De acordo com a líder indígena Kerexu Yxapyry, a prática dos sistemas agroflorestais se intensificou com a quarentena, fortalecendo a troca entre as famílias da comunidade. “Para não ficarmos sem o que fazer, começamos a produzir uma agrofloresta, plantamos mais de duas mil árvores frutíferas e outras plantas para alimentação. Com isso, nosso povo da aldeia está se fortalecendo como cultura, como luta e ocupando os espaços dos nossos territórios. Continuamos seguindo todas as orientações de lavar as mãos e tomar banhos quando voltamos da cidade e tomando nossos chás para nos prevenir. O momento é muito especial, pois tivemos muitas trocas em famílias. Aqui na nossa aldeia não tem nenhum caso, nem suspeito. Graças a Deus estamos todos bem”.

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