Manejo de pirarucu ganha o Rio de Janeiro

Indígenas Paumari e comunitários do Amazonas apresentam manejo de pirarucu junto a chefs de cozinha no Rio Gastronomia.

Manejadores e apoiadores no Corcovado. Foto: Gosto da Amazônia

Rio de Janeiro (RJ) – Depois da recepção a renomados chefs de cozinha cariocas em suas terras, no rio Tapauá, sul do Amazonas, dois indígenas Paumari da Associação Indígena do Povo da Água (AIPA), pegaram o avião para participar do maior festival gastronômico do país, o Rio Gastronomia. Lá, reencontraram os chefs e conheceram outros manejadores. Juntos, apresentaram o manejo de pirarucu ao público do festival em que circulam, por dia, mais de 1500 pessoas. A atividade começou no último fim de semana como atividade do projeto Gosto da Amazônia, executado pelo Sindicato dos Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) e pelo Instituto Maniva por meio da “Parceria pra conservação da biodiversidade na Amazônia”*. De 22 a 25 de agosto, a programação continua com culinária, apresentações culturais e artísticas.

Compõem o festival dois estandes com produtos da Amazônia. Um com ingredientes de produtores locais; outro, com as receitas do projeto Gosto da Amazônia, que serviu o peixe manejado em três formas: caldo de pirarucu com farinha de tapioca, barriga de pirarucu assada com arroz de castanha, moqueca com farofa de farinha de ovinha e arroz de castanha. Para completar, havia uma sobremesa de castanha-do-brasil com chantili de bacuri com cumaru. “Tinha bastante gente que provava. E o pessoal ia aprovando”, disse Germano Paumari, da coordenação da AIPA. “A aceitação está sendo espetacular”, destacou a chef Teresa Corção, presidente do Instituto Maniva.

Manejadores, chefs de cozinha, organizações de apoio no estande “Gosto da Amazônia”. Foto: Gosto da Amazônia.

No estande do projeto um painel de fotos das terras Paumari e do manejo, convidavam as pessoas para saberem sobre a floresta amazônica e o pirarucu. “Falamos tudo o que é possível fazer para manter a floresta em pé”, explicou Germano Paumari. “O público ficava fascinado ao ter as explicações diretamente deles, com tanta pertinência e conhecimento”, contou também Teresa Corção. Mesmo quem não estava na feira pôde saber sobre o manejo já que diversos veículos de comunicação se interessaram pela história. “Foi a viagem com mais entrevistas que já fiz na minha vida”, disse Germano.

A participação no Rio Gastronomia também foi importante por possibilitar o encontro entre manejadores de pirarucu de outras bacias do Amazonas, muito distantes entre si. “A gente não se conhecia. Agora ficaram todos abertos pra se conhecer mais ainda”, disse José Lino Paumari, destacando que foi uma comitiva grande, com manejadores do rio Unini, Purus, Juruá e do Solimões e contando com a participação também da Associação dos Comunitários que Trabalham com Desenvolvimento Sustentável no Município de Jutaí (ACJ). “Foi só ganho que a gente teve”, enfatizou ele.

Além de participar da feira levando informações sobre o manejo, os presentes se reuniram e receberam aplausos no palco de uma aula gastronômica em que Teresa Corção, Jéssica Trindade e Fredéric Monnier ensinaram três receitas com pirarucu. O encontro na aula foi um dos momentos mais emocionantes em que ficou claro o envolvimento dos chefs, embaixadores do manejo, com a valorização dessa importante atividade. O auge da emoção foi quando Ana Cláudia Torres, coordenadora de manejo de pesca Instituto Mamirauá, leu um manifesto que produziu sobre o pirarucu:

“O gigante da Amazônia
Colossal, o pirarucu simboliza a grandeza da Amazônia. Por lá, tudo é grande, tudo é muito. Tudo é tudo. E esse tudo é o todo de muita gente. De povos indígenas, caboclos, ribeirinhos.
Não há medida que dê conta de mensurar as riquezas dos rios, das florestas e da vida animal.
Mais do que uma atividade econômica, o manejo de pirarucu é a relação equilibrada entre o ser humano e a natureza. E tal como se espera de uma relação, respeito é uma virtude fundamental.
É um aguardar consciente de que tudo tem o seu tempo, o seu ciclo natural pra acontecer.
Por sorte o rio já não é mais o mesmo quando nos banhamos pela segunda vez. As águas se revelam diferentes e nós também. Por isso, há esperança.
Com o reconhecimento espera-se que uma vida plena e abundante continue renascendo na Amazônia. Tanto para os ribeirinhos, caboclos, indígenas, quanto para o majestoso e fascinante pirarucu”.

Na cidade do Rio

Além das atividades no festival Rio Gastronomia, a comitiva foi ao Museu do Amanhã, onde foi servido pirarucu (esgotado em duas noites, como contaram Germano e José Lino) e experimentaram outras receitas de chefs cariocas. Tomaram café da manhã no Meza Bar, de Andressa Cabral, aberto naquele horário especialmente para receber a comitiva e trocar experiências, comeram pirarucu e carneiro no Barsa, de Marcelo Barcelos.

Os Paumari e participantes da viagem foram ainda à empresa Só Peixe, a única a trabalhar com o pirarucu manejado no Rio de Janeiro. Um representante da empresa já havia ido à terra dos Paumari também na viagem dos chefs. Na Só Peixe, conheceram as formas de tratar outras espécies como salmão, camarão e sardinha e puderam conhecer as perspectivas de uma empresa distribuidora de peixes. Ficou claro a importância da qualidade do tratamento do pescado, em que os Paumari são referência. No Rio, tiveram oportunidade de experimentar peixe de mar. “A comida é bem diferente da nossa, mas gostei”, disse José Lino Paumari.

Com a inserção do pirarucu manejado no Rio Gastronomia, os participantes esperam que haja maior reconhecimento ao peixe. O trabalho com o manejo envolve participação de um grande número de pessoas, atividades de dias de planejamento, vigilância dos lagos e pesca, além de processos burocráticos de autorização com os órgãos ambientais responsáveis. Envolve também grandes custos que hoje não são contabilizados no valor pago pelo mercado. “A gente espera que melhore. Não só para nós, mas para todo mundo”, concluiu José Lino.

* O projeto “Parceria para a conservação da biodiversidade na Amazônia” conta com recursos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), apoio do Serviço Florestal Americano e envolve, no Brasil, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Institito Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Contatos com a imprensa
Dafne Spolti
dafne@amazonianativa.org.br
(65) 3322-2980 / 99223-2494

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