O preço justo do pirarucu sustentável

O manejo da espécie no Amazonas procura aperfeiçoamento para garantir melhor renda às comunidades.

Por: Dafne Spolti/OPAN

Manaus (AM) – A produção de pirarucu manejado só vem aumentando nos últimos anos. Em 2016 foram pescados mais de 1,7 milhões de peixes, o que foi possível com o crescente aumento dos estoques, em média 12% ao ano. Apesar da produção ter crescido quatro vezes em relação a 2012, o preço do peixe diminuiu praticamente pela metade no período, saindo de uma média de R$ 7,12 para R$ 3,78, já considerando a inflação. Os dados foram apresentados no seminário “Diagnóstico do manejo de pirarucu em áreas protegidas do Amazonas”, realizado na última semana, em Manaus.

Participantes do seminário. Foto: Dafne Spolti/OPAN.

“A gente não pode permitir que permaneça com tão baixa remuneração”, destacou Antônio Adevaldo Dias, do Memorial Chico Mendes e da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), defendendo que o passo inicial mais importante a ser dado neste sentido é a inclusão do pirarucu manejado na Política de Garantia de Preços Mínimos para Produtos da Sociobiodiversidade (PPGM-Bio), da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o que foi objeto de moção no último dia do seminário.

Antônio Adevaldo falando sobre desafios e perspectivas do manejo. Foto: Dafne Spolti/OPAN

O preço pago por compradores e até mesmo pela Conab (preço mínimo fixado em R$ 7,74) ainda é distante do que foi estimado no diagnóstico. De acordo com o estudo, as comunidades gastam o equivalente a R$ 2,50 por quilo com insumos e serviços, como combustíveis para a vigilância dos lagos e transporte do peixe, aluguel de barcos e compra de gelo. Além disso, há o custo de remuneração dos manejadores em todas as etapas de trabalho estimado em R$ 11,00 por quilo. Dessa forma, o valor mínimo do pirarucu do manejo seria de pelo menos R$ 13,50.

Embora superior ao preço atual, os R$ 13,50 não pagam os custos com infraestrutura, formação de capital de giro e a recuperação dos investimentos iniciais. Deveria ser maior, portanto, para pagar de fato os custos do manejo, como explicou a especialista em negócios e cadeias de valor da sociobiodiversidade, Fernanda Alvarenga, da Conservação Estratégica no Brasil (CSF).

Fernanda Alvarenga durante apresentação do diagnóstico. Foto: Gustavo Silveira/OPAN.

 

Além disso, há ganhos ambientais, sociais e culturais não incorporados. “O manejo é uma das ferramentas de desenvolvimento local das mais incríveis que já apareceu no Amazonas”, destacou o pesquisador João Vítor Campos-Silva, que completou ainda: “no cálculo dos preços podemos até não considerar esses benefícios, mas temos que saber que eles existem”.

O estudo apontou que em 2016 a renda bruta total com o manejo foi de R$ 7,5 milhões para as comunidades (com o valor médio baixo, de R$ 3,78). Em uma projeção a partir de dados daquele ano, considerando a comercialização hipotética de todo peixe pescado em filé e pele exclusivamente para atravessadores e destes para frigoríficos, foi estimada a renda bruta de R$ 1,8 milhões e R$ 14,3 milhões, respectivamente. “Além desses valores, ainda há milhões em renda que são gerados nos elos seguintes da cadeia, resultantes da venda desses e outros produtos por distribuidores, varejistas, indústrias da moda e mercado gastronômico”, disse Fernanda Alvarenga, da CSF.

Entre os motivos para o baixo preço do pirarucu se destaca a grande oferta de produção, boa parte proveniente da pesca ilegal, que oferece ao mercado peixes capturados sem os critérios para conservação da espécie, ao longo de todo ano. Esse pescado compete de forma desleal com o peixe de manejo que é capturado em um único período, seguindo as normativas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) e o decreto estadual 36083/2015. “A ilegalidade é prejudicial para nós que trabalhamos com o manejo”, destacou Benedito Souza, da Resex Médio Purus, representando a Associação dos Trabalhadores Rurais Agroextrativistas do Médio Purus (Atamp).

Pirarucu de manejo. Foto: Dafne Spolti/OPAN

Assim como as melhorias em infraestrutura e na política de preço mínimo, o aumento da fiscalização ao longo da cadeia de valor foi considerado um dos pontos cruciais a serem trabalhados pelos presentes no seminário. A partir dele houve mais uma moção visando maior controle da origem do pescado no mercado para tentar elevar o preço do pirarucu a um patamar melhor e fortalecer as comunidades manejadores de todo o Amazonas.

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Dafne Spolti

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