Paumari consolidam manejo

O povo está confiante e com ótimas perspectivas para o futuro.

Por: Carla Ninos/OPAN

Lábrea, AM – Depois de cinco anos de manejo nos lagos das terras indígenas Paumari do rio Tapauá, área localizada no sul do estado do Amazonas, mantendo apenas a pesca para subsistência de outras espécies, os Paumari realizaram de 7 a 10 de outubro sua segunda pesca manejada, com autorização do Ibama e anuência da Funai. Esta iniciativa é apoiada pelo projeto Raízes do Purus, realizado pela OPAN com o patrocínio da Petrobras. Essa experiência é a única, que se tem notícia, realizada em terras indígenas na região do Purus, consolidando-se como uma alternativa para o povo Paumari garantir a gestão e a proteção do seu território.

A primeira pesca, realizada em setembro do ano passado, foi permeada por uma grande expectativa e ansiedade tanto por parte dos indígenas quanto por parte da OPAN e parceiros. Ao todo, 50 peixes foram pescados, 3.500 kg de pirarucu e uma renda total de R$ 26.422,50. Com os números positivos e os sinais de recuperação dos peixes, os Paumari abraçaram de vez o manejo.

Esse ano a pesca foi realizada no mês de outubro por causa da demora na vazante dos rios. Dos 39 lagos reservados pelo povo para a recuperação dos estoques, três foram palco da experiência da pesca manejada: Lago Redondo e Lago Comprido na TI Paumari do Lago Paricá, e Lago da Volta na TI Paumari do Lago Manissuã. Da cota de 99 peixes autorizados, foram pescados 89, sendo 85 pirarucus comercializados, três destinados à doação e um para a alimentação do povo.

Fogos de artifício, antes da alvorada, anunciaram de maneira festiva o início dos trabalhos no Lago Redondo. A pesca envolveu diretamente 84 indígenas, divididos em equipes: audiovisual, pescadores, transportadores, geladores, limpadores, monitores, responsáveis pelos registros de peso e medidas de cada peixe, e a equipe da cozinha, que reunia as mulheres e os meninos mais jovens.

Pescadores fazendo a comboiagem em um dos lagos.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

Nos lagos, o trabalho era silencioso e exigia muita concentração dos experientes pescadores que, com redes apropriadas, faziam a ‘comboiagem’ – processo que tenta separar os peixes jovens dos adultos e os levam para a cabeceira do lago, a fim de facilitar a captura dos pirarucus.

A base de apoio foi montada nos flutuantes de vigilância, onde os peixes eram pesados, medidos, eviscerados, limpos e era feita a análise do estágio gonodal, em que se identifica o sexo e se o peixe está maduro para a procriação. Na última etapa desse processo, o peixe recebia o lacre e ia para o gelo, no barco geleiro contratado pela Cooperativa Mista Agroextrativista Sardinha (COOPMAS), compradora do produto Paumari.

Flutuante de vigilância sendo transportado para servir de base.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

O zelo dos Paumari com a manipulação do peixe foi muito grande, desde o momento em que saía do lago até chegar ao gelo, tudo para garantir um produto de qualidade para ser um diferencial no mercado.

Os Paumari limpam todo o peixe por dentro para comercializar.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

Pirarucu Paumari e o mercado

Astrogildo Oliveira da Costa, diretor da COOPMAS, explica que o produto pesqueiro tem uma exigência muito rígida por ser perecível. “Temos procurado usar a melhor técnica possível, inclusive os parceiros são escolhidos com o objetivo de apresentar um produto de qualidade. O destino também é analisado, e sempre escolhemos locais e pessoas que trabalham com responsabilidade, com técnica de manejo, dentro das normas de vigilância”, reitera.

O pirarucu do povo Paumari foi vendido para o Pará, por ser um estado que apresenta uma das melhores estruturas de beneficiamento e de recebimento do produto. Neste ano, a pesca rendeu 4.950 quilos, quase cinco toneladas de pescado. A média de peso foi de 58 quilos, vendidos a R$ 7,50 (valor unitário por quilo). Os 85 peixes foram comercializados por R$ 37.125,00, dos quais foram separados 30% para uma ‘caixinha’. Ela totalizou R$ 11.137,50 para investimentos futuros. O restante, R$ 25.987,50, foi dividido entre os Paumari através do sistema de pontos, uma forma de tentar remunerar cada um de acordo com o seu envolvimento no trabalho do manejo, que envolve a vigilância territorial, reuniões, contagem e a pesca.

Momento da comercialização entre os Paumari e a cooperativa.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

“Do ano passado para cá, houve esse amadurecimento entre os Paumari essa sistematização de pontos me parece algo mais justo e uma forma de mobilizar as pessoas a se envolver mais. O controle social opera de forma muito interessante entre o povo e fez com que o processo de divisão de recursos fosse tranquilo e harmonioso”, analisa o coordenador do Programa Amazonas da OPAN, Gustavo Silveira.

Momento da contagem dos pontos para divisão do recurso.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

Para a Funai, que tenta dar as condições institucionais básicas para que o manejo possa ser realizado, o povo Paumari está com uma discussão muito madura sobre o processo e a organização interna da despesca. “Houve uma grande mudança de postura do povo Paumari do Tapauá com relação ao aproveitamento dos recursos. Antigamente, eles arrendavam os lagos para barcos pesqueiros que realizavam a pesca predatória. A partir da elaboração do plano de gestão territorial e a implementação do plano de manejo, eles aboliram essas práticas e conseguiram fazer uma gestão desses lagos de modo a aproveitá-los”, comenta o indigenista da Funai, Marco Antônio Cordeiro.

Os Paumari mudaram alguns pequenos hábitos e costumes, por conta do manejo, e a natureza colaborou de forma incrível. Em cinco anos de manejo, foi registrado um aumento significativo de todo o estoque pesqueiro, de quelônios e de caça, uma fartura que o povo não via há algum tempo dentro do território. “No meu ponto de vista, o manejo do pirarucu está sendo fundamental para a gestão territorial das terras indígenas Paumari”, comemora Gustavo Silveira.

Com o sucesso do manejo do pirarucu e com a autoestima elevada, o povo Paumari já pensa em manejar outras espécies e aplica os aprendizados do manejo no dia a dia, mesmo quando pescam para a subsistência. “Eu pensava que a gente não ia conseguir, agora eu me sinto feliz, e para o futuro eu espero que a gente maneje outras espécies de peixes”, explica Edicley Paumari da aldeia Capanã, TI Paumari do Lago Manissuã.

A felicidade de ver de volta a abundância de peixes está estampada no rosto de cada um, que já se permitem sonhar. “Quando eu olho para o futuro e me lembro de onde nós saímos, vejo que a gente estava no fundo do abismo. Esse manejo mudou as nossas vidas e nos deu reconhecimento e respeito enquanto povo. Eu me sinto orgulhoso e quero ver a ideia do nosso manejo ser espalhado para o Brasil inteiro”, comenta emocionado Francisco de Oliveira Paumari da aldeia do Xila, TI Paumari de Cuniuá.

 

Parceria importante

Desde o início, o plano de manejo do povo Paumari contou com a colaboração de instituições oficiais e organizações parceiras, que foram muito importantes para que fossem atingidos excelentes resultados, não só de recuperação do estoque pesqueiro, como também na organização social e na gestão territorial.

O Instituto Piagaçu é um desses parceiros, por trabalhar a técnica de manejo de recursos pesqueiros com os Paumari, tendo como base para isso, a implementação do manejo de pirarucu na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus (RDS Piagaçu-Purus), uma Unidade de Conservação (UC) do estado do Amazonas inserida em um mosaico de áreas protegidas de aproximadamente dois milhões de hectares.

“Temos atuado nesta componente do manejo do pirarucu no tocante ao acompanhamento da recuperação dos estoques (além da análise dos resultados das contagens anuais dos lagos da área de manejo) e com as discussões que são realizadas para a estruturação organizacional/gerencial do povo Paumari no processo de manejo (organização comunitária, formatos de organização operacional para a pesca – os grupos). Também apoiamos a elaboração e implementação do regimento interno da pesca”, explica o coordenador do Programa de Conservação e Manejo de Recursos Pesqueiros do Instituto Piagaçu, Felipe Rossoni.

Os Paumari remam rumo ao horizonte, olhando pra frente.
Foto de Adriano Gambarini/OPAN

O povo Paumari do rio Tapauá está com os olhos voltados para o futuro, em que o manejo do pirarucu é uma realidade, um conceito absorvido nas práticas diárias e uma ação que eles querem ver perpetuada pelas próximas gerações.

 

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Carla Ninos – carla@amazonianativa.org.br

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