Uma grande e multicultural roda marcou o lançamento do livro Irehi

Uma grande roda, formada por lideranças indígenas, pesquisadores, representantes do poder público e da sociedade civil, foi formada no último dia 23, para o lançamento do livro “Irehi, gestão territorial e ambiental de terras indígenas em Mato Grosso”. Na tarde de segunda-feira, a sala virtual que abrigou a discussão chegou a somar 80 pessoas on-line, na plataforma virtual que tem limite de 100 participantes. Pelo menos 120 pessoas se inscreveram, via formulário eletrônico, para participar do debate multicultural mediado pela coordenadora do programa Mato Grosso da OPAN, Artema Lima.

Entre os participantes da mesa estavam Andrea Jakubaszko, autora do livro, indigenista e professora do Departamento de Ciências Sociais da Unimontes (MG); Rinaldo Arruda, antropólogo e presidente da OPAN; Crisanto Rudzö Tseremey’wá, presidente da Fepoimt ;Manuel Kanunxi, cacique do povo Manoki ; Damião Paridzané, cacique do povo Xavante da TI Marãiwatsédé; André Ferro e Rafael Almeida, do Fundo Amazônia.

A autora do livro ressaltou a importância da parceria com os povos indígenas para a efetiva implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI). “Esse registro demonstra o quanto pode ser feito, o quanto pode ser realizado se acreditarmos na potência desses povos”, afirmou Andrea Jakubaszko.

A troca de aprendizados que a convivência entre as equipes técnicas e os indígenas proporcionou também foi ressaltada por Rinaldo Arruda. O presidente da OPAN lembrou, ainda, o longo caminho que os povos percorreram até que a gestão territorial em terras indígenas ganhasse status de política pública. “A PNGATI é fruto de lutas indígenas. Foram essas lutas que exigiram que o Estado tivesse um olhar apropriado para a questão. Essa política não foi um presente, foi uma resposta positiva do Estado frente à luta indígena. E ela é muito importante, pois tem colocado questões fundamentais da nação brasileira, como um todo.”

 

 Manoel Kanunxi reforçou a relevância da luta para as conquistas dos indígenas. “É uma batalha difícil, as lideranças sofrem perseguição, mas a nossa luta continua, a gente não está desanimando, mesmo sabendo que não é fácil. Ganhamos o território para cuidar dele, do meio ambiente e dos rios.”

O espírito guerreiro dos Xavante também se fez presente na fala do cacique Damião. O líder da comunidade da TI Marãiwatsédé conclamou os povos a permanecerem juntos, a manter a união em prol dos direitos indígenas. Ele também demonstrou preocupação com a votação do recurso especial, pelo Supremo Tribunal Federal, que ameaça os povos com a possibilidade da delimitação de um marco temporal a ser aplicado na política fundiária. “Se acontecer, as florestas serão desmatadas, o cerrado será desmatado, a mineração vai avançar. E nós, o que nós vamos comer? Onde vamos buscar recursos na natureza?”, questionou.

 

Um dos momentos de maior emoção da roda de conversa ocorreu com a participação Crisanto Rudzö Tseremey’wá. O presidente da Fepoimt discorreu sobre a diferença da economia indígena para a tradicional e destacou a necessidade de um olhar mais sensível da sociedade civil para o modo de organização dos povos. “A conservação do meio ambiente tem o valor da vida, o valor espiritual e o econômico.”

 

O Fundo Amazônia, financiador do projeto Irehi, esteve presente na roda de conversa da OPAN representado por André Ferro e Rafael Almeida. Os gestores reafirmaram a importância do sucesso do projeto Irehi para orientar futuras ações. “A gente, do Fundo Amazônia, também aprendeu muito com esse projeto. É uma satisfação ter apoiado essa iniciativa. Obtivemos várias lições para levar para outras experiências.”

 

 

 

 

A coordenadora do Programa Mato Grosso e responsável pelo projeto Irehi realça os desdobramentos potenciais que residem nas políticas de gestão territorial. O modo como os povos indígenas lidam com suas terras é um exemplo de sustentabilidade, segundo Artema. Ainda, o sucesso do Irehi simboliza um norte para a execução da PNGATI em outras partes do país.

“É preciso que cada vez haja mais espaço e visibilidade para os povos indígenas. Esperamos também que esta experiência possa ser uma importante motivação para outros povos que desejam também registrar os seus jeitos de fazer a gestão de seus territórios. E que possa ainda ampliar os espaços de realização da PNGATI, com a participação efetiva dos estados e municípios. O cuidar do território e o jeito de viver indígena cooperam com modelos mais sustentáveis e respeitosos com a natureza, pois consideram fortemente as dimensões culturais e sagradas”, conclui Artema Lima. 

 

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