Tempo de mudança: novo calendário do território Tirecatinga é criado
Oficinas promovidas pela Associação de Mulheres Indígenas Thutalinãnsu resultam em documento que atualiza desafios de gestão territorial considerando os impactos do clima sobre a vida cultural e social dos povos.
Na Terra Indígena (TI) Tirecatinga, o tempo já não segue os padrões de antes. A natureza, que era previsível, agora apresenta sinais de confusão. O canto do pássaro macaoã, tradicionalmente um prenúncio de chuva, soa em agosto, mas a chuva não se materializa. A rama de mandioca plantada em setembro cozinha na terra e morre antes de virar alimento. A emergência climática, antes algo distante, agora se manifesta no dia a dia dos povos que habitam este território.
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A Associação Thutalinãnsu, atenta às mudanças climáticas, identificou a necessidade de atualizar seu calendário ecológico e cultural. Essa ferramenta, que reflete as transformações no território, busca também apresentar propostas de enfrentamento. A demanda surgiu após uma oficina no território com os jovens, ao despertar nos participantes a necessidade de fazer algo sobre as mudanças em curso.
A primeira etapa da atividade, realizada entre 3 e 4 de dezembro de 2024, reuniu representantes de 11 aldeias: Novo Horizonte, Águas Claras, Nova Encantada, Caititu, Nova Conquista, Arara Azul, Cabeceira do Jabuti, Anchieta, Aldeia Guarantã, Serra Azul e Utiariti. No dia 21 de fevereiro de 2025, os participantes se reuniram novamente na Aldeia Serra Azul e validaram o conteúdo discutido no ano passado. As informações serão transformadas em um livro e um calendário interativo, com ilustrações feitas pelos jovens que participaram da oficina.
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Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu, lembra que antes os povos indígenas não precisavam fazer publicações e não havia a necessidade da escrita, do papel, e a relação com os antepassados garantia que o conhecimento fosse aprendido e passado de geração em geração. Mas as ameaças foram crescendo ao redor do território, sendo necessário olhar e registrar o que acontece.
“É uma forma de não nos perdermos diante de tantas mudanças. Quando entendemos nosso calendário antigo e o que está acontecendo agora, compreendemos melhor e conseguimos dialogar sobre como vamos enfrentar. A importância de atualizar nosso calendário tradicional é olhar para o tempo e perceber como era antes e o que está mudando. Além do significado dessas mudanças para nossas vidas. Com o calendário atual, temos mais uma ferramenta para lutar para melhorar a vida da comunidade, defender os nossos direitos”.
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Geraldo Terena, uma liderança do território que também participou da atividade, expressa preocupação com o futuro, questionando como será a vida dos jovens daqui a dez anos. “Quem está pensando nisso?”, ele indaga. “Tivemos uma vida boa. E agora, como será a vida desses novos?”. As mudanças climáticas já alteraram o ritmo da natureza: “Antes tacava fogo em agosto para plantar em setembro. Hoje, a gente põe fogo em dezembro para plantar em janeiro. O tempo mudou. A vida mudou. O clima está mudando. Quem mudou isso? Não fomos nós”, ele afirma, destacando a urgência de agir.
O calendário como herança e segurança
Pedro Nambikwara, outra liderança da Terra Indígena Tirecatinga, enxerga na elaboração do calendário uma forma de salvaguardar o futuro. “Queremos deixar uma herança valiosa para aqueles que virão depois de nós”, enfatiza. “Considero este projeto de extrema importância, pois garante que as próximas gerações tenham as ferramentas necessárias para enfrentar os desafios que se apresentam”.
Diante de cada alteração identificada no território, os participantes do projeto se dedicaram a buscar soluções adaptativas. As tempestades, cada vez mais intensas, com ventos fortes e raios, têm causado a destruição de casas e barracões, escolas e postos de saúde, colocando em risco a vida das pessoas. Como medida de adaptação, foi proposta a construção de estruturas mais resistentes, com fundações sólidas e telhados reforçados.
Além disso, a criação de espaços de refúgio seguros no território foi considerada essencial para abrigar as famílias em situações de emergência.
Desafios do calor e contaminação
O calor excessivo tem dificultado a coleta de plantas medicinais em áreas distantes das aldeias e lavouras e tanto as plantas quanto as fontes de água próximas estão sendo contaminadas por agrotóxicos. Para enfrentar esse problema, os participantes propuseram a realização de análises detalhadas das plantas medicinais encontradas no centro do território, a fim de verificar a presença de contaminantes. Além disso, o mapeamento das áreas livres de agrotóxicos no território foi considerado fundamental para garantir o acesso a recursos naturais seguros.
Todas as mudanças levantadas no território Tirecatinga vão estar no livro e no calendário. Para Marco Nambikwara o material será muito importante para o povo, mas também para conhecimento externo. “Queremos que nosso calendário seja reconhecido e respeitado pelas autoridades municipais, estaduais e federais”.
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A expectativa é que o livro e o calendário, frutos do trabalho coletivo e da sabedoria ancestral, sejam lançados ainda neste semestre. “Esta é uma contribuição concreta às discussões e aos desafios da gestão dos territórios indígenas em meio a transformações nunca vistas no clima, que impactam profundamente as sociedades indígenas. Os materiais que saem dessas oficinas aqui são instrumentos legítimos de gestão dos povos, feitos para o enfrentamento dos problemas de hoje em dia e que fortalecem a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, da PNGATI”, comenta Andreia Fanzeres, coordenadora do Programa de Direitos Indígenas da OPAN.
Conforme Cleide Terena, presidente da Thutalinãnsu, essas obras são mais do que registros das mudanças climáticas, mas testemunho da resiliência e da força dos povos de Tirecatinga. “Nossa presença aqui é ancestral, através da terra, temos nossa força. Nos mantemos povos, cultuamos a nossa cultura, cultivamos os nossos alimentos, tiramos dela nosso sustento. O que fazemos hoje é para existir o amanhã. Nós, indígenas, sabemos que a terra é nossa mãe. A nossa relação com seus ciclos é profunda, nossa vida está conectada com o tempo da natureza. Tirecatinga é território de muita resistência e luta, de diferentes povos que vivem aqui. Começou com a Missão, quando os padres tiraram nossa condição de falar na língua, falar da nossa vida como era. Então, falar hoje da ancestralidade é resgatar nossa identidade. Ressurgimos pela nossa cultura e fomos nos adaptando a uma nova realidade”, afirma Cleide Terena.
Durante a oficina, Liliane Xavier, secretária-executiva da Rede Juruena Vivo e facilitadora da atividade, compartilhou a profunda conexão que sente com o território Tirecatinga. “Desde o ano passado, quando iniciamos as discussões sobre justiça climática com a juventude, me emociona estar aqui, me arrepia, e desde o primeiro momento em que pisei neste chão, meu corpo e meu espírito reagiram dessa forma”.
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“Acho que nos conectamos para trilhar uma caminhada muito bonita. E a conclusão do livro não marca o fim do trabalho, mas sim o início de uma nova etapa. O que realizamos hoje foi mais um passo em direção ao enfrentamento conjunto das mudanças que nos foram impostas”, acrescentou.
Liliane ainda enfatizou a importância de transformar o conhecimento em ação. “Após a finalização do livro, nosso próximo passo é buscar meios de colocar em prática todas as propostas que elaboramos. Precisamos garantir que as soluções encontradas se concretizem e que possamos construir um futuro mais seguro e justo para as próximas gerações”.
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