‘Florescendo nas Brechas’ reúne experiências das economias da sociobiodiversidade
Livro publicado pela editora Mil Folhas traz reflexões críticas sobre a bioeconomia e aprendizados sociais de diferentes territórios do Brasil
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Por Talita Oliveira | OPAN
Reunir e sistematizar uma diversidade de iniciativas voltadas à promoção das economias da sociobiodiversidade é o propósito do livro “Florescendo nas Brechas — territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”, lançado pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio) e publicado pela editora Mil Folhas. A obra apresenta esforços conjuntos da sociedade civil e de setores do Estado, acumulados ao longo de mais de uma década, para fortalecer essas economias no país.

Ao longo de 11 capítulos e 284 páginas, o livro reúne relatos e reflexões sobre experiências que expressam a diversidade e a força dos territórios brasileiros. Entre elas estão a cadeia produtiva do babaçu nos estados do Maranhão e Pará, a produção de farinha de jatobá no Tocantins, a pesca artesanal costeira e marinha, e o manejo sustentável do pirarucu no Amazonas — exemplos que evidenciam práticas baseadas em saberes tradicionais e no uso sustentável dos recursos naturais.
A publicação também destaca iniciativas de articulação e incidência política, como a Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos do Amazonas (Catrapoa) e a Mesa Permanente de Diálogo Catrapovos Brasil, além de políticas públicas que contribuem para o fortalecimento dessas práticas, entre elas o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Manejo participativo do pirarucu selvagem: um modelo vivo de sociobioeconomia
O sétimo capítulo do livro, intitulado “Manejo participativo do pirarucu selvagem: um modelo vivo de sociobioeconomia e bem viver”, apresenta o manejo do pirarucu realizado no Amazonas como um exemplo de sociobioeconomia que alia proteção territorial, direitos sociais, soberania alimentar, fortalecimento cultural, desenvolvimento econômico e protagonismo dos povos indígenas e comunidades tradicionais.
A publicação aborda experiências como a dos povos Deni e Paumari, para os quais o manejo do pirarucu constitui uma unidade indissociável entre cosmologia, cultura, organização social e superação de relações históricas de exploração. “As relações entre humanos, animais, plantas e o ambiente em que vivem são pautadas por outros termos que não os da gramática dos recursos naturais, que podem ser explorados com indiferença pelos humanos. No caso do povo Deni, o ve’e (pirarucu) não é simplesmente um peixe a ser capturado, mas um ser que coabita o mundo e que deve ser respeitado”, cita um trecho do artigo.
O capítulo foi construído de forma colaborativa por mais de trinta pessoas, representantes de dezessete organizações que compõem o Coletivo do Pirarucu. Segundo Leonardo Kurihara, indigenista da OPAN e um dos autores, a elaboração do livro seguiu a mesma lógica participativa que orienta o manejo do pirarucu.
“O processo de elaboração deste livro reflete o próprio movimento que é o Coletivo do Pirarucu e a essência do manejo participativo: uma construção coletiva, fundada no diálogo, na troca de experiências e na convergência de diferentes olhares em torno de um mesmo propósito. O capítulo reafirma que o manejo do pirarucu é, antes de tudo, uma forma de existência coletiva, em que o conhecimento local, a organização social e o cuidado com os lagos e as florestas se entrelaçam para gerar vida, identidade e autonomia”, afirma Kurihara.
Lançamentos em Brasília
O livro foi lançado oficialmente em setembro, durante a programação da Semana da Sociobiodiversidade 2025, em um evento fechado. Um novo lançamento, aberto ao público, acontecerá no dia 16 de outubro, às 18h, no Espaço Contra Urbano Liberta (716 Norte), em Brasília. Na ocasião, autoras, autores e representantes do ÓSocioBio participarão de um bate-papo com o público.
Os exemplares estarão à venda com desconto especial para quem participar presencialmente do evento. A publicação também pode ser adquirida pelo site livraria.iieb.org.br.