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Cuiabá: a capital como território sagrado e indígena

Localização de Cuiabá é território do povo Boe. Espaços culturais contam essa história e a de diversos povos indígenas de Mato Grosso.

Áudio gerado por IA

Por Helena Corezomaé/OPAN

Embora Cuiabá celebre seus 307 anos nesta quarta-feira, marco oficializado pela fundação por Pascoal Moreira Cabral em 1719, a história da capital mato-grossense é muito anterior à chegada dos bandeirantes e da febre do ouro, sendo um território que era lar do povo Boe, conhecidos popularmente como Bororo.

Mulheres Boe em apresentação cultural de seu povo. Foto: Helena Corezomaé

Para Libério Uiagumeareu, liderança indígena, escritor e mestre em Direito, o caminhar de seu povo já desenhava as margens dos rios Cuiabá e Coxipó milênios antes de qualquer registro colonial. “Nós muitas vezes somos esquecidos, esse caminhar indígena antes da chegada do não indígena”, ressalta, pontuando que a memória oficial costuma não mostrar quem já vivia na região.

Essa presença ancestral reflete-se, inclusive, na própria origem do nome da capital. Diferente da lenda popular da “cuia que caiu”, que teria dado o nome da cidade, Libério explica que “Cuiabá” deriva de Ikuiepá, a flecha-arpão utilizada exclusivamente para a pesca. “É uma flecha com corda; quando atinge o peixe, você puxa e ele vem junto”, detalha.

Apresentação cultural do povo Boe. Foto: Helena Corezomaé

Contudo, para o povo Boe, essa conexão com as águas e a terra não se encerra no manejo da caça, ela se estende para a própria geografia, tendo o Morro de Santo Antônio como lugar sagrado.

“O morro é o cenário do mito da segunda geração do nosso povo. Durante uma grande inundação, o personagem principal, Meriripo, salva-se ao subir o morro. Quando as águas baixam, ele desce à procura de seu povo, mas não encontra ninguém e acaba se relacionando com os animais, que tratamos como animais, mas que representam mulheres de outros povos. Quando nasce uma criança semelhante à geração anterior, ele fica com aquela mulher e ali surge a nossa segunda geração”.

Essa autonomia narrativa, que explica a origem e a resistência do povo, contrasta com as versões oficiais que Libério encontra fora das aldeias. Ao visitar museus, ele afirma que se deparou com obras que mostravam bandeirantes “apresentando” o ouro aos Bororo. “Meu povo já trabalhava com o ouro e a prata; fazíamos colares. Essa ideia de que o não indígena traz sempre ‘o novo’ é uma fake news construída para apagar nosso protagonismo”.

Diante desse apagamento, Libério defende a importância de espaços culturais que fujam da estética contemplativa e estática. “O indígena é presente, não é museu. Precisamos de espaços de vivência”.

Abaixo, destacamos espaços em Cuiabá para quem deseja conhecer as culturas indígenas. Apresentamos também o centro cultural da Terra Indígena (TI) Merure.

1. Museu de História Natural de Mato Grosso 

Instalado na histórica Casa de Dom Aquino, este museu intensifica sua programação com oficinas de pintura e apresentações culturais no mês de abril.

Nos dias 23 e 24 de abril, o museu realiza a 12ª Edição do Encontro Indígena. O evento, fruto da parceria entre o Museu e o Instituto Ecos, busca promover a reflexão sobre a constituição das populações indígenas e a relação entre brancos e não brancos na contemporaneidade.

2. Museu Rondon de Antropologia e Etnologia – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

O museu possui um dos acervos etnográficos mais importantes do país, preservando artefatos de diversos povos.

No dia 16 de abril, às 19h, o auditório recebe a palestra “Mulheres Indígenas: Da Ancestralidade ao Ativismo – Conexões entre Territórios de Lutas”, ministrada pela Profa. Dra. Joziléia Daniza Jagso Kaingang.

Além da atividade, o museu oferece visitas guiadas às exposições, muitas vezes acompanhadas por alunos indígenas da UFMT vinculados ao Programa de Educação Tutorial Indígena (PET IND).

3. Casa Vituka 

A Casa Vituka funciona como um centro cultural que valoriza a produção dos povos indígenas. O público pode explorar a biblioteca do Ponto de Cultura (acervo indígena e indigenista), adquirir itens na loja de artesanato e conversar com a monitoria indígena do mês.

Em abril, a casa vai estar aberta às quintas e sextas das 14h às 17h (dias 16, 17, 23, 24 e 30). Já no sábado das 9h às 11h30.

4. Centro Cultural de Merure (Terra Indígena Merure)

Para uma experiência fora do eixo urbano, destacamos o Centro Cultural na Aldeia Merure (região de Barra do Garças). O diferencial é que o espaço é gerido pelos próprios Boe. No local, uma pessoa da comunidade explica a relação das artes, os formatos e como a história do povo está inserida em cada objeto.