Brasil: as lições do Povo das Águas
Diante de um declínio drástico na população de pirarucu, peixe essencial para sua sobrevivência, o povo Paumari do estado do Amazonas participou de um programa de restauração da espécie que combina conhecimentos tradicionais e científicos. O resultado: após alguns anos, os peixes estão novamente povoando o rio Purus.
Áudio gerado por IA
Por Marcelo Silva de Sousa, Jornalista do Correio da Unesco
No rio Purus, enquanto a luz começa a se dissipar e o calor persiste na água, um pirarucu emerge à superfície para respirar. O som — profundo, úmido, ancestral — renova na terra um pulso que esteve próximo da extinção. “A natureza clamava por socorro”, recorda o jovem pescador Chico Paumari. “Chegávamos ao lago e não havia nada. Ver nossas reservas diminuírem era de partir o coração. Não sabíamos como alimentaríamos nossos filhos.”

O amanhecer tem cheiro de umidade ferruginosa e fumaça de fogueiras. Os Paumari, um povo indígena de cerca de dois mil habitantes da vasta região do estado do Amazonas, no noroeste do país, se definem com uma frase impossível de encontrar em manuais científicos: “Somos o povo da água, os únicos que realmente vivem dentro dela”. Quando a população de pirarucu (o maior peixe de escamas de água doce do mundo) despencou para apenas 266 indivíduos adultos em 2009, os Paumari se viram diante de uma ameaça existencial.
Durante anos, a academia e o conhecimento tradicional trilharam caminhos paralelos sem se cruzarem. Os técnicos chegavam com formulários. Os indígenas ofereciam o instinto. O ponto de virada ocorreu quando ambos decidiram sentar-se na mesma canoa, uma aliança promovida pela OPAN (Operação Amazônia Nativa), uma das organizações indigenistas mais antigas do Brasil, que naquela ocasião atuou como ponte entre dois mundos.
Uma passarela entre dois mundos
A recuperação do pirarucu, que agora conta com mais de 10.000 indivíduos, foi possível graças a um método de gestão comunitária que combina vigilância territorial, censos anuais e pesca controlada, que nunca ultrapassa 30% dos peixes adultos. Não se trata apenas de ciência, nem apenas de tradição; é uma tecnologia social que extrai os elementos essenciais de ambos os mundos: da biologia, dos protocolos e do monitoramento; do conhecimento ancestral, da leitura da água, dos ciclos da vida e do respeito pelos limites impostos pela natureza.
“Eles sabem como o rio se move, onde os peixes se refugiam, como ele reage à lua ou à terra”, explica Felipe Rossoni, biólogo da OPAN que trabalha com o povo desde 2009. “Nosso papel foi ajudar a sistematizar esse conhecimento para que pudéssemos dialogar com as normas do Estado sem alterar sua essência”, acrescenta.
Segundo ele, essa gestão conjunta acabou alcançando algo mais profundo do que a recuperação de um recurso pesqueiro: uniu as pessoas em torno de uma agenda comum, fortaleceu a governança local e possibilitou a construção de infraestrutura, a criação de um fundo comunitário e a restauração do orgulho daqueles que, por gerações, foram desvalorizados.
“Hoje, quando vemos o lago cheio, sabemos que ele voltou porque o protegemos”, diz Chico Paumari. “Não queremos ser um povo esquecido novamente.”
Influenciar decisões
Esse avanço local está ligado a um processo maior no Brasil: a incorporação gradual do conhecimento indígena na tomada de decisões nacionais. No centro desse movimento, Eloy Terena, advogado indígena e secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas, criado em 2023, reconhece que esse processo exige certa dose pedagógica: “O desafio é técnico e jurídico: precisamos integrar o conhecimento da aldeia e os ritmos da natureza à rigidez da administração”, explica.
“Trata-se de traduzir a visão de mundo tradicional em procedimentos capazes de influenciar as políticas climáticas.”
Trata-se de traduzir a visão de mundo tradicional em procedimentos capazes de influenciar licenças ambientais, demarcações e políticas climáticas.
Esse processo ainda enfrenta alguma resistência. Alguns setores econômicos continuam a ver a demarcação de terras como um obstáculo ao desenvolvimento. No entanto, diversos estudos demonstram a relevância das práticas indígenas na gestão de suas terras. Segundo o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), as Terras Indígenas são, de longe, a categoria territorial mais eficaz para conter a devastação.
“Os números são convincentes”, explica a pesquisadora do IPAM, Paula Guarido. “Nos últimos 30 anos, as Terras Indígenas no Brasil perderam apenas 1,2% de sua vegetação nativa. As terras privadas, no mesmo período, perderam quase 20%.”
Os dados climáticos são ainda mais reveladores. No Território Indígena do Xingu, localizado nos estados brasileiros de Mato Grosso e Pará, a temperatura média dentro do território é dois graus mais baixa do que nas áreas agrícolas circundantes, e a evapotranspiração — a força motriz por trás dos “rios voadores” que irrigam a região centro-sul do continente — é significativamente maior. “Onde há terra indígena, há floresta”, resume Guarido. “Elas são a última fronteira verde.”
Durante a recente conferência climática COP30, realizada em novembro de 2025 na cidade brasileira de Belém, a voz dos povos indígenas emergiu como um pilar de qualquer estratégia climática séria.
Rios voadores
Existe uma ligação direta entre os lagos restaurados do rio Purus, as imagens de satélite do Xingu e os compromissos climáticos globais. Essa ligação indica que a defesa dos territórios indígenas é indissociável da estabilidade climática global, segundo especialistas.
Ao cair da noite, quando os sons da floresta mudam de frequência, a Amazônia continua enviando umidade na forma de rios voadores para o sul do continente, irrigando plantações cujos beneficiários muitas vezes desconhecem – ou subestimam – aqueles que mantêm esse ciclo vivo.
“Proteger os territórios indígenas não é um ato de caridade antropológica, mas sim uma estratégia de sobrevivência planetária.”
A lição que podemos aprender dos povos da água é simples e urgente: proteger os territórios indígenas não é um ato de caridade antropológica, mas sim uma estratégia de sobrevivência planetária.
Dinamam Tuxá, coordenador da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), deixa uma mensagem que resume o espírito desta história: “Oferecemos tecnologia para evitar o fim do mundo. A questão é se a humanidade está disposta a aprender ou se continuará acreditando que sabe mais do que a Terra.”