Economia para autonomia política
Deputada estadual Eliane Xunakalo realiza audiência pública sobre economias indígenas em Mato Grosso
Áudio gerado por IA
Por Dafne Spolti/OPAN
Como primeiro ato, a deputada indígena recém empossada, Eliane Xunakalo, promoveu a audiência “Sociedade e Economia Indígena”. Foi na atividade que representantes do movimento indígena, de organizações sociais, órgãos do poder público e indígenas de Mato Grosso puderam comemorar, de forma concreta, a conquista de ter a liderança no parlamento estadual.

A diretora executiva da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), Joziléia Kaingang, destacou que autonomia política precisa de autonomia econômica. Ela falou também da invisibilidade das economias dos povos indígenas que são tão valorosas. “É uma economia que sustenta vidas, territórios, e florestas há milênios. Nós estamos falando dessa economia indígena que é uma economia baseada na coletividade, na sustentabilidade, na reciprocidade”, afirmou.
A ideia foi trazida também por Silvano Chue, do povo Chiquitano, secretário executivo da Federação das Organizações e Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), que é presidida por Eliane. “Para manter o nosso fortalecimento político, nós precisamos nos organizar economicamente, financeiramente dentro dos nossos territórios”, afirmou, após parabenizar a deputada.

Ele reforçou o direito de cada povo trabalhar com as iniciativas de seu interesse nos territórios, garantia do usufruto exclusivo da Constituição Federal de 1988. Observou que a pauta da economia não significa destruir os territórios e, ainda, que o modo tradicional não limita o que cada povo quer construir em termos de economia para seu território.
O coordenador geral da OPAN, Ivar Busatto, indicou como prioritários o acompanhamento técnico para estruturação das iniciativas econômicas de acordo com os desafios contemporâneos e de uma educação escolar indígena que responda às questões que cada sociedade tem no campo da economia. “Esperamos que o estado avance e possa também ser pioneiro e dar respostas qualificadas”, reforçou.

Educação escolar diferenciada e dinâmicas econômicas
A professora e líder da juventude em seu território, Edna Bakairi, também defendeu o direito à educação escolar diferenciada de forma relacionada com a economia, a partir de um exemplo concreto de sua vida.
“No nosso território trabalhamos com pesca. As criancinhas já nascem sabendo que tem que pescar para poder sobreviver, para poder alimentar seu povo, sua família, a sua casa. Nós não proibimos as crianças a fazerem o que a gente faz porque eles aprendem no dia a dia, conosco. Porque nós temos que aprender a sobreviver. Se eu não repassar o que eu sei para as crianças, o que será delas futuramente?”, questionou.

A professora falou do grave impacto de não existir educação escolar diferenciada em seu território porque as crianças ficam na sala de aula e não podem acompanhar os adultos para os aprendizados inerentes ao seu desenvolvimento. “As crianças crescem dentro da escola sem poder acompanhar seu povo, sem poder acompanhar os pais na pesca, sem poder me acompanhar no mato para buscar fibra, tirar palha, para fazer construção e reforma das nossas casas porque a escola da minha comunidade não é escola diferenciada. Ela é 100% escola do kariva que é o não indígena”.
A partir das discussões, que podem ser assistidas no YouTube da TV Assembleia, Eliane Xunakalo disse que as questões seriam levadas para o Executivo e que o espaço de diálogo continua aberto. Ela indicou o Acampamento Terra Livre de Mato Grosso, a ser realizado de 26 a 30 deste mês, como momento oportuno e onde haverá uma audiência pública sobre demarcação de terras indígenas.
A deputada reforçou seu compromisso com a pauta das economias. “Não vamos medir esforços para que a gente possa incentivar, fortalecer as economias que têm em nossos territórios”, disse, elencando as já em curso e que carecem de visibilidade e a riqueza de iniciativas ainda por vir. Por fim, agradeceu aos presentes: “Estou aqui porque foi construído o caminho com a coletividade”.