Indígenas do sul do Amazonas se qualificam para uso de drones no combate aos incêndios

A ferramenta é uma nova aliada no monitoramento do fogo e na criação de bancos de dados que podem contribuir na prevenção crimes ambientais.

Os brigadistas indígenas do Médio rio Madeira ganharam importantes aliados na luta contra os incêndios, que chegaram à marca de 7 mil focos registrados na Amazônia no mês de agosto, o maior número dos últimos 22 anos. São os drones. Os olhos aéreos podem trazer segurança e precisão para o trabalho das brigadas que atuam na região sul do estado do Amazonas e qualificar as estratégias de monitoramento do fogo. A ferramenta foi apresentada em um curso de formação promovido pela Operação Amazônia Nativa (OPAN), do dia 31 de agosto a 1º de setembro, na sede da arquidiocese de Humaitá (AM). Participaram das oficinas indígenas dos povos Tenharim, Pirahã e Jiahui. A ação, financiada pela Global Wildlife Conservation (GWC), também possibilitou a aquisição dos drones para as brigadas.

Aulas teóricas foram ministradas na arquidiocese de Humaitá (AM). Foto Centro de Estudos Rioterra.

Mais do que manejar joysticks para fazer subir e descer a pequena aeronave, os brigadistas conheceram a importância estratégica das informações na defesa dos territórios. O curso apresentou aos indígenas ferramentas de geotecnologia, tipos e técnicas de coletas de referências, elaboração e organização de banco de dados e a utilização da plataforma Google Earth PRO, que reproduz um modelo do globo terrestre em 3D a partir de um mosaico de imagens de satélite. “O drone é um material de extrema importância, ajuda no combate prático de incêndios e no mapeamento de dados. Com os voos, será possível mapear quantos hectares devem ser monitorados. E durante a ocorrência de um incêndio, poderemos saber com certeza quantos hectares foram atingidos”, afirma Magno de Lima dos Santos, indigenista da OPAN.

“O equipamento também diminui os desgastes desnecessários dos brigadistas no deslocamento na região de fogo. Com ele, é possível ter uma dimensão da visão no local e decidir o melhor acesso para chegar até o fogo”

Chefe de uma brigada que protege e controla focos nos municípios de Humaitá e Manicoré (AM), Amaury Tenharim relata que a experiência piloto do curso deu mostras da importância da utilização da tecnologia aérea no combate ao fogo. “O drone vai melhorar bastante o trabalho. Ele proporciona qualidade nas imagens captadas e ajuda no reconhecimento dos focos de incêndio. O equipamento também diminui os desgastes desnecessários dos brigadistas no deslocamento na região de fogo. Com ele, é possível ter uma dimensão da visão no local e decidir o melhor acesso para chegar até o fogo”, resume.

Com a aeronave, brigadas poderão montar banco de dados com informações sobre os hectares atingidos pelo fogo. Foto: Centro de Estudos Rioterra.

A inclusão dos drones irá incrementar a estratégia de combate aos incêndios na região sul do Amazonas, uma das mais castigadas pelo fogo em todo o estado. Os municípios de Humaitá, Lábrea, Manicoré e Apuí são os que mais sofrem e poderão ser diretamente beneficiados pela tecnologia dos drones. A negligência do poder público em relação à situação do local foi questionada pelo Ministério Público do Amazonas, que requisitou providências e informações ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

A negligência do poder público em relação à situação do local foi questionada pelo Ministério Público do Amazonas

A utilização de tecnologia de ponta no combate ao fogo representa, segundo a coordenadora do projeto, Lola Campos Rebollar, uma dupla oportunidade. A exatidão do GPS dos drones permite sensível melhoramento do monitoramento e, ao mesmo tempo, prepara grupos indígenas para realizar o trabalho de proteção dos territórios em um contexto de negligência do poder público. “Nesse governo, nós vemos como as ameaças que os direitos dos povos sofrem são enormes e descontroladas. Há um desmonte da estrutura de fiscalização e proteção. Assim, as tecnologias tornam-se necessárias e aumentam a capacidade de resistência dos grupos.”

E se não fossem as limitações impostas pela pandemia, ressalta Magno, o movimento de ocupação dos ares para o monitoramento do fogo seria maior. Devido ao distanciamento social, as turmas precisaram ser reduzidas. “O curso seria na terra indígena. Nós protelamos ao máximo antes de decidir ministrar as aulas, mas a pandemia não cedeu. Realizamos a parte teórica no auditório da arquidiocese de Humaitá e o treino prático teve que ser feito em um campo de futebol.”

O objetivo desse projeto piloto é levar qualificação profissional aos brigadistas, para que eles possam utilizar a ferramenta na rotina de combater ao fogo e, ao mesmo tempo, exerçam a missão de multiplicadores do conhecimento em suas aldeias. Esse é o papel que Cleiton Ramos Macedo pretende desempenhar junto a seu povo, os Jiahui. “Com a oportunidade dessa capacitação, poderemos nos tornar multiplicadores específicos. A ferramenta vai agregar muito, fornecerá uma resposta imediata no trabalho de monitoramento do fogo. Geralmente, a gente vai para uma missão e não sabe o que vai encontrar, pois o nosso acesso é todo fluvial. Com esse equipamento, não. A gente visualiza mais amplo”, afirma Cleiton, um dos indígenas que participou do curso.

“Geralmente, a gente vai para uma missão e não sabe o que vai encontrar, pois o nosso acesso é todo fluvial”

 

Nas operações, o drone vai voar a até 100 metros de altura e a 300 metros de distância do piloto. Foto: Centro de Estudos Rioterra.

As configurações do drone permitem que equipamento suba até 500 metros e se distancie a 3.000 metros na horizontal, segundo o fabricante. As pequenas aeronaves só podem trafegar durante o dia. A legislação que rege a prática de pilotagem exige, ainda, registro junto à Agência Nacional de Aviação Civil, cadastro do piloto, solicitação e informação sobre a área de voo.

Além do fascínio provocado pela tecnologia dos drones, Amaury Tenharim conta que o deslumbramento ao ver a Amazônia do alto reconstitui as forças para lutar contra a destruição provocada pelo desmatamento e pelo fogo. “Observar o território de cima dá outra visão do lugar. Com o uso do drone conseguimos ver como está a vida, o ambiente ao nosso redor e assim ter mais disposição para proteger a natureza.”

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