29 de junho de 2016

Aliança entre Deni e ribeirinhos do Juruá fortalece organização comunitária e conservação. Por: Dafne Spolti/OPAN Os Deni do rio Xeruã subiram um trecho do Juruá até a comunidade Bauana, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, para entender como acontece, na prática, uma pesca manejada* de pirarucu. Ao acompanhar o planejamento da RDS e da […]

Aliança entre Deni e ribeirinhos do Juruá fortalece organização comunitária e conservação.

Por: Dafne Spolti/OPAN

Os Deni do rio Xeruã subiram um trecho do Juruá até a comunidade Bauana, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, para entender como acontece, na prática, uma pesca manejada* de pirarucu. Ao acompanhar o planejamento da RDS e da Reserva Extrativista (Resex) Médio Juruá para a pesca deste ano, os Deni ficaram mais perto de realizar sua primeira pesca comercial de pirarucu, programada para 2017. Além disso, no evento, realizado este mês, eles e os moradores das duas unidades de conservação (UCs) começam a se articular para as demais etapas do manejo, como a vigilância dos lagos e a conservação dos recursos naturais. A atividade na RDS contou com apoio da OPAN, que executa na região o projeto “Arapaima: redes produtivas”, com recursos do Fundo Amazônia.

Para o professor Zuzurivi Hava Deni, da aldeia Itaúba, a reunião foi importante porque os ribeirinhos da RDS e da Resex explicaram sobre o manejo e os procedimentos burocráticos da atividade. “Aprendemos com o pessoal como fazer documentos do manejo, como o relatório de pesca”, contou. Ele está certo de que a articulação entre eles irá dar força para o manejo – até por conta da otimização de uso da infraestrutura para escoamento – e destacou o papel do esforço conjunto para evitar a entrada de invasores em busca de pescado. “Com aparelhos de radiofonia, se Deni tiver problema com invasores pode ligar para ribeirinhos e chegar numa conversa, juntos, para resolver a situação. E se ribeirinho sofrer invasões, também pode ligar para os Deni”, explicou.

O coordenador do projeto Arapaima, Vinicius Benites Alves, da OPAN, também destacou o papel da articulação entre os povos, importante para que eles pensem juntos em estratégias de conservação. “Esses dois grupos possuem culturas diferentes, históricos diferentes, mas a floresta e o rio são os pontos semelhantes, onde ambos sobrevivem graças à riqueza desses recursos naturais”, explicou. Vinicius destacou que essa articulação é um grande desafio por conta da distância entre os territórios, porém, cada vez mais importante frente às ameaças à região, como o comércio ilegal de pirarucu e, agora, do garimpo de ouro.

Zuzurivi Deni se apresentando. Foto: Renato Rodrigues Rocha/OPAN.

Durante o planejamento da pesca também foi possível perceber como é a organização dos moradores da RDS e da Resex, extremamente forte, como destacou o indigenista da OPAN, Renato Rodrigues Rocha. Ele disse também que ao tratarem de todas as etapas do manejo, realizando desde a avaliação da pesca anterior até a divisão da renda que foi gerada e os desafios da atividade, os Deni viram de forma realista como ele funciona. “Eles puderam ter noção do nível de organização que é preciso, noção de que existem muitos gastos no manejo e que ele pode dar lucro, mas também prejuízo”, observou.

Avaliando a participação dos Deni na reunião, o coordenador técnico do manejo de pirarucu das duas UCs, Eude Monteiro Santiago, da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), ficou muito confiante com o trabalho na terra indígena. Ele acredita que os Deni já estão aptos a realizar uma pesca considerando a experiência nas outras etapas do manejo, como a contagem de pirarucu, a que tem se dedicado desde 2009. Para Eude, se hoje os Deni precisam de apoio para o manejo, logo mais estarão apoiando a atividade na região.

O coordenador também vê que a articulação entre os Deni e os extrativistas irá ajudar na manutenção do ecossistema da região, lembrando que ao preservar o pirarucu, toda uma cadeia de espécies está protegida. A opinião é compartilhada, ainda, pelo presidente da Associação dos Moradores da RDS Uacari (Amaru), Antônio Almires das Chagas Bondin: “a parte fundamental é a proteção e o monitoramento. E eles estão preservando muito bem”, disse, confiante de que, por este motivo, eles já possam realizar sua própria pesca.

Além de Zuzurivi, participou da reunião de planejamento o presidente da Associação do Povo Deni do rio Xeruã (Aspodex), Marizanu Makhuvi Deni, da aldeia Morada Nova, convidado a compor a mesa de abertura, Umada Kuniva Deni, do Boiador e Kazupana Kuniva Deni, da aldeia Terra Nova. Eles aproveitaram o momento, em que se sentiram muito bem recebidos, e convidaram alguns comunitários a participarem de sua assembleia, que será realizada nos dias 5,6 e 7 de agosto, na aldeia Morada Nova.

Grupo de trabalho para definição de prioridades do manejo. Foto: Renato Rodrigues Rocha/OPAN.
Pesca no JuruáA pesca de pirarucu da RDS Uacari e da Resex Médio Juruá deste ano começa dia 15 de agosto. Deverá ser autorizada uma cota de 679 peixes na RDS Uacari e 670 na Médio Juruá (cerca de 77 toneladas), como explicou o coordenador do manejo, Eude Monteiro Santiago. Parte dos peixes serão comercializados para Programa de Aquisição de Alimentos (PAA); parte deverá atender ao mercado do Pará e do próprio Amazonas.No mesmo período da pesca da RDS e da Resex, este ano os Deni do rio Xeruã farão a atividade de forma experimental, mas atendendo a todo procedimento que é exigido pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Eles estão elaborando o plano de manejo e a partir dele irão solicitar a cota de pesca. Também cumprirão as etapas conforme a legislação exige – farão a medição do peixe e a pesagem (inteiro e eviscerado), registro do sexo e do estágio gonadal, higienização e a elaboração do relatório da pesca a partir desses dados, o que será utilizado no pedido de pesca de 2017.

 

*Pesca manejada – é realizada após uma série de procedimentos voltados à manutenção da espécie nos lagos. Trata-se do processo legal para fazer a pesca de pirarucu na natureza. Só ocorre com aprovação do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Contato com a imprensa

Dafne Spolti – dafne@amazonianativa.org.br

Telefone: (65) 3322-2980 / 9223-2494

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