OPAN inicia projeto estratégico na Amazônia com apoio do Bezos Earth Fund
Um dos objetivos do projeto é o fortalecimento da gestão de organizações indígenas e locais. No âmbito da proteção legal, haverá apoio técnico e jurídico para acelerar o reconhecimento dos territórios indígenas
A Operação Amazônia Nativa (OPAN) deu início às atividades do projeto “Proteção e Gestão Territorial no Sudoeste da Amazônia Brasileira”. Com um aporte de US$ 4 milhões ao longo de quatro anos, viabilizado pelo Bezos Earth Fund, a iniciativa visa fortalecer a governança indígena e acelerar a proteção legal de áreas críticas que somam mais de 8 milhões de hectares nos estados de Mato Grosso e do Amazonas.

O pontapé inicial ocorreu em uma reunião de planejamento em Cuiabá, entre os dias 31 de março e 1º de abril de 2026. O encontro reuniu coordenadores, comunicadores e indigenistas das regiões Araguaia, Juruena, Purus, Juruá e Solimões para definir as ações prioritárias do primeiro ano.
A gestão do projeto será colegiada, sob a liderança de Andreia Fanzeres e supervisão técnica de Gustavo Silveira, contando com o suporte de pontos focais regionais. Para assegurar a eficiência diante da magnitude da operação, a equipe administrativa e de logística da OPAN foi reforçada.
De acordo com Andreia Fanzeres, a iniciativa trará impacto estratégico no amparo técnico e no impulsionamento na agenda de proteção territorial. “Para a OPAN, este projeto será uma oportunidade para aprimorarmos o nosso papel no apoio às organizações indígenas no enfrentamento de seus desafios de gestão, considerando o contexto de maior protagonismo indígena no recebimento de recursos e execução autônoma de suas atividades. Também poderemos contribuir com processos de demarcação e gestão em áreas estratégicas da Amazônia em um projeto de médio prazo, o que confere melhores condições para implementarmos processos com mais consistência e confiança”.
Na mesma linha, Gustavo Silveira pontua que o desenho do projeto atende diretamente a uma reivindicação histórica do movimento. “Parte desse projeto vai ao encontro de uma das principais demandas do movimento indígena, que é o financiamento direto. Estamos muito entusiasmados com essa possibilidade e convictos de que contribuiremos significativamente com os povos indígenas nessa caminhada”.
O coordenador geral da OPAN, Ivar Busatto, ressalta que a iniciativa exigirá um esforço coletivo e uma postura de abertura para o diálogo interinstitucional.
“Esse projeto nos impõe uma responsabilidade imensa. Sabemos que ninguém faz nada sozinho ou chega longe de forma isolada, restrito apenas à sua própria instituição. Fomos instigados a desenhar um trabalho mais amplo, que nos empurra para fora e nos estimula ao diálogo e à reflexão conjunta com outras organizações indígenas e de comunidades tradicionais. Essa dinâmica integrará nossa força de trabalho e conhecimento dentro de cada espaço geográfico e cultural onde atuamos”.
O projeto possui um escopo que contempla o fortalecimento da gestão em 18 Terras Indígenas (TIs), com 7,9 milhões de hectares, e três Áreas Protegidas, que totalizam 2,8 milhões de hectares. No âmbito da proteção legal, haverá apoio técnico e jurídico para acelerar o reconhecimento de oito territórios que somam 4,1 milhões de hectares, incluindo seis áreas com presença de povos indígenas isolados, como as TIs Piripkura e Jacareúba-Katawixi.

Além disso, a inclusão de associações no Médio Solimões, como a Associação dos Comunitários que Trabalham com Desenvolvimento Sustentável no Município de Jutaí (ACJ), e a Associação dos Produtores da Reserva Extrativista do Rio Jutaí (Asproju), que está retomando suas atividades na região, expande o impacto territorial em mais de 528 mil hectares.
O projeto prioriza o fortalecimento da autonomia indígena por meio do repasse direto de recursos e da capacitação de 21 organizações locais em seus trabalhos de gestão administrativa-financeira e nas atividades finalísticas de cada uma delas. Durante o primeiro ano, serão realizados diagnósticos participativos para estruturar planos de ação e assegurar a aplicação estratégica desses investimentos.
Entre as instituições beneficiadas estão o Conselho dos Povos Indígenas de Jutaí (Copiju) e a Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt), além de associações locais já acompanhadas pela OPAN em seus processos de fortalecimento.
Ações prioritárias e frentes de atuação
As atividades programadas para este ciclo inicial abrangem a elaboração e atualização de Planos de Gestão Territorial e Ambiental (PGTAs) e Planos de Vida, com destaque para as TIs Espírito Santo, na região do Médio Solimões, e Kanamari do Rio Juruá.
O projeto também viabilizará o apoio à vigilância territorial e ao manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade, como o do pirarucu no Médio Solimões e a vigilância nas TIs Deni e Rio Biá, também associadas às economias sustentáveis. Para fortalecimento da conservação ambiental, as frentes incluem a prevenção de incêndios e a estruturação de viveiros de buritis para o povo Enawene Nawe, além de expedições técnicas para suporte à demarcação física da TI Apiaká do Pontal e Isolados.
Para assegurar a proteção de povos isolados, serão elaborados estudos técnicos visando a qualificação de registros nas regiões do Rio dos Peixes, Sangue-Arinos e Pontal. Complementarmente, em maio de 2026, serão contratados consultores para realizar diagnósticos em pelo menos 14 organizações para estruturar os repasses financeiros de fortalecimento institucional.