Nelson Mutzie Rikbaktsa

A tristeza da morte precoce de uma importante liderança Rikbaktsa.

Por Rinaldo Arruda*

Filho mais velho de Albano e Maria Elisa, menino esperto, curioso e habilidoso, sempre ativo e interessado na vida e no povo Rikbaktsa. Conheci na aldeia da Primeira Cachoeira ainda criança, junto com seus irmãos. Desde rapazinho sempre se destacou por suas posições firmes e combativas. De língua afiada e comportamento propositivo enfrentou junto com sua família e seu povo várias situações em defesa do território e das condições de vida Rikbaktsa.

Nos últimos anos encabeçou a luta pela saúde do povo Rikbaktsa e dos povos indígenas da região como presidente do Conselho de Saúde Indígena e depois como assessor indígena do Distrito Especial de Saúde Indígena (DSEI) de Vilhena, quando empreendeu com sucesso a construção do sistema de saúde da região noroeste do estado de Mato Grosso. Esteve na linha de frente no combate à Covid-19 auxiliando os Cinta-Larga na região de Serra Morena e os povos indígenas do DSEI Vilhena, no Mato Grosso e em Rondônia.

Mais do que isso, atuou com persistência na linha de frente de várias iniciativas de resgate e defesa das culturas indígenas, divulgando as práticas e costumes de seu povo e de outros povos indígenas, sempre lutando por uma sociedade que valorizasse a diversidade cultural, e os conhecimentos dos ancestrais.

É uma grande perda! Nelson foi um dos que lutou para a construção da primeira biblioteca comunitária indígena de Juína, a ser construída em Fontanillas, que abrigará as teses e livros sobre o povo Rikbaktsa, política indigenista, estudos sobre o meio ambiente, literatura indígena e geral e publicações na língua Rikbaktsa.

Acompanhou de perto o processo de elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental Rikbaktsa, encabeçando várias reflexões, propondo caminhos e soluções, ajudando a desenhar o futuro Rikbaktsa. Sua atuação ali também foi decisiva para achar respostas aos desafios que se apresentam.

Sua preocupação atual, além da saúde, era de contribuir decisivamente para a melhoria das condições de vida de seu povo, garantir um horizonte para o futuro dos jovens e das gerações vindouras, através do reforço da autonomia dos Rikbaktsa. Estava consolidando o planejamento para instalar no território Rikbaktsa uma linha de beneficiamento da castanha, sonhava com projetos variados de geração de renda que favorecessem o trabalho de todos dentro do território e que preservassem os conhecimentos tradicionais na agricultura, no extrativismo, na culinária e na medicina tradicional.

Nelson sempre se destacou por onde passou e atuou, deixando uma marca inesquecível no povo Rikbaktsa e na região noroeste do estado de Mato Grosso.

É com enorme pesar que enfrentamos sua partida precoce, jovem e combativo como sempre foi. Nelson, você ficará sempre conosco, com sua energia e alegria de viver. Juntou-se agora aos guerreiros que já se foram e com eles está agora na aldeia ancestral.

Nossas condolências a seus pais, irmãos, parentes e a todo o povo Rikbaktsa. A tristeza de vocês também é a nossa. Nelson estará para sempre em nossos corações e na nossa memória.

* Rinaldo Arruda é indigenista, antropólogo e diretor-presidente da Operação Amazônia Nativa.

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