Resistência e sustentabilidade: assembleia da Asproc reúne 500 comunitários no Médio Juruá
Assembleia foi realizada entre os dias 15 e 17 de abril na comunidade Pupuaí, no município de Carauari, no Amazonas
“Rio Juruá é vida, é estrada, é resistência. Ele nasce longe, atravessa desafios e segue firme, alimentando comunidades, sustentando culturas e conectando sonhos. Assim como o nosso rio, também é a nossa caminhada”, declarou Suzy Barros, coordenadora de projetos da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc).

A fala de Suzy abriu a assembleia geral da instituição, realizada entre os dias 15 e 17 de abril na comunidade Pupuaí, no município de Carauari, no Amazonas. Para ela, a história do Médio Juruá não foi construída com facilidade, mas sim na luta de seringueiros, pescadores, mulheres e jovens que transformaram invisibilidade em organização.

O evento não foi apenas um encontro administrativo, mas a celebração da trajetória de povos que buscam força na resiliência da floresta. Reunindo cerca de 500 participantes, a assembleia consolidou-se como um exercício fundamental de democracia participativa e gestão territorial.
Durante os três dias de imersão, o balanço de ações foi apresentado de forma transparente. Isso permitiu que cada comunitário analisasse as atividades realizadas, compreendesse seus impactos financeiros e sociais, além de sugerir melhorias para o próximo ciclo.
Além da prestação de contas, o espaço foi aberto para reivindicações diretas. Cada membro das comunidades teve a oportunidade de expor necessidades locais, garantindo que as decisões da associação reflitam, de fato, os anseios da base.
A juventude local também ocupou um espaço de protagonismo, trazendo canções que reforçavam o orgulho ancestral. Uma das letras entoadas dizia: “Eu sou feliz é na comunidade, na comunidade eu sou feliz”, evidenciando que o sentimento de pertencimento e o modo de vida tradicional seguem vivos nas novas gerações.

O manejo como ciência da conservação
Um dos debates técnicos da programação concentrou-se no manejo do pirarucu. Hoje, a espécie figura como a principal fonte de receita das famílias locais, seguida de perto pela produção de borracha.
Os dados da contagem de 2025 identificaram 32.236 bodecos e 26.448 adultos, totalizando uma população monitorada de 58.684 indivíduos em 172 ambientes. Esse monitoramento rigoroso é o que permite o manejo, sem riscos de extinção.
Produção recorde e impacto econômico
Os resultados apresentados consolidam o manejo do território do Médio Juruá como uma potência da economia solidária no Amazonas. O crescimento na pesca entre 2024 e 2025 foi notável: o salto de 3.829 para 4.726 peixes capturados representou um aumento significativo na renda e no volume de produção das famílias de Carauari.
Em termos de peso, a produção saltou de 220 mil para mais de 265 mil quilos. Somando as parcerias estratégicas com o povo Deni e a associação AAEPPRI, o território alcançou a marca histórica de 281.670 kg de pirarucu, totalizando quase 5 mil peixes manejados sob regras rígidas de sustentabilidade.
A eficiência logística também foi um destaque. A vasta maioria da produção (4.817 peixes) foi enviada diretamente para o frigorífico, o que assegura a comercialização formal e o cumprimento das normas sanitárias. Isso garante que o retorno financeiro chegue de forma mais justa e segura aos produtores.
O esforço para alcançar esses resultados é fruto de um trabalho que dura o ano inteiro. A abrangência do manejo assessorado pela Asproc chega a 49 comunidades, incluindo a Resex Médio Juruá e a RDS Uacari. Somente no monitoramento, participaram 931 pessoas que cuidaram de 185 lagos diferentes, protegendo o território contra invasores.
A contagem dos peixes, realizada entre julho e agosto, mobilizou 423 pessoas em 172 ambientes aquáticos. Já a fase da pesca envolveu 1.052 participantes, contando com o apoio fundamental da Colônia de Pescadores Z-25. Esses números provam que o manejo é, acima de tudo, um grande mutirão social.
A realização desta assembleia na comunidade Pupuaí reafirma que a organização comunitária é a ferramenta mais eficaz contra as pressões externas. No Médio Juruá, o manejo ultrapassa a economia; é uma estratégia de defesa da floresta e da dignidade humana, guiada pela premissa de que, para resistir, é preciso organizar.
