OPAN

Ato em memória do Irmão Vicente Cañas

Relato do indigenista e antropólogo Ivo Schroeder*

Áudio gerado por IA

Vicente Cañas junto a uma criança Enawene-Nawe em 1975. Foto: Arquivo OPAN/CIMI

A celebração da morte e ressurreição do Missionário Vicente Cañas Kiwxi, nos festejos da Páscoa em abril de 2026, foi uma iniciativa dos Jesuítas, da Diocese de Juína, de indigenistas e missionários do CIMI e da OPAN, com destaque para a presença de 4 sobrinhas espanholas de Vicente. Além de celebrações em Cuiabá e Juína, uma comitiva se deslocou até a aldeia e de lá ao Barraco de Vicente, onde ele foi morto e se encontra enterrado.

Da trajetória de vida missionária e indigenista de Vicente se destaca sua inserção na então Missão Anchieta, ainda no final da década de 1960, em particular com os povos Tapayuna (Beiço de Pau), depois Pareci, Myky e por fim com os Enawene-Nawe.

A seu tempo, diversas experiências missionárias inovadoras, entre elas a Missão Anchieta, a Prelazia de São Félix do Araguaia, bem assim experiências em diversos pontos do Brasil que, sob inspiração do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellín (1968), radicalizaram seu compromisso com os respectivos povos. Grande impacto teve igualmente a Declaração de Barbados I (1971), quando em Simpósio um conjunto antropólogos destacou a permanência de uma relação colonial com os povos indígenas, os massacres, roubo de terras, destruição das culturas, entre outros, e apontaram a responsabilidade dos Estados, das Missões religiosas e da antropologia e compromisso para reconhecer o direito aos seus territórios, o respeito à cultura, o direito de se organizarem; enfim, favorecer a libertação do indígena.   

Importa reconhecer o esforço e as práticas inovadoras já em curso na ação missionária e indigenista, que vieram inspirar as linhas de atuação do CIMI, consolidadas em sua 1ª Assembleia Nacional em 1975. Doravante a atuação de leigos e missionários passaram a assumir a defesa incondicional dos direitos à cultura, ao seu modo próprio de se organizar, à demarcação e garantia de seus territórios.

Uma vez completado o contato com os Enawene em 1974, Vicente, através da presença encarnada e respeitosa, a par da assistência, se comprometeu inteiramente com a defesa de seu território. Desde logo contou com a presença de voluntárias da OPAN, sobretudo para os cuidados da saúde, aprendizado da língua, a par da firme defesa da integridade territorial.

Vicente mantinha um ponto de apoio –   conhecido por Barraco do Vicente – no caminho para a aldeia, na margem esquerda do rio Juruena, já em território indígena, para uma espécie de quarentena sanitária, mas já próximo aos afluentes onde os Enawenê construíam suas barragens de pesca. Ali veio a ser martirizado, em abril de 1987, como tal o veneramos, exemplo de quem lutou até o fim, tendo cumprido sua missão à risca.

Viagem até o Barraco de Vicente

Deslocamento para cerimônia a Vicente Canãs na Terra Indígena Enawenê-Nawê. Foto: Ivo Schroeder

Como enunciado acima, nesta Páscoa, uma Comitiva se deslocou até a aldeia e de lá em 5 barcos, um grupo de 18 visitantes e 11 Enawene Nawe desceram os rios Iquê, Camamaré e Juruena, aportando no Barraco de Vicente às 13:30 h do dia 7 de abril, após uma viagem de 3 horas. O Barraco fora objeto de manutenção pelos Enawene, estava em bom estado e desde logo Sebastião Moreira do CIMI-MT relatou aos presentes como, juntamente com Pe. Thomaz e Egon Heck do CIMI e um Myky (também Kiwxi), chegaram em maio de 1987 ao local do crime, estando a casa em desordem e Vicente mumificado nos fundos do barraco. Tião lembrou ter dito aos colegas “a vida é frágil”. Narrou ainda como registraram tudo, sem tocar em nada, e depois se dirigiram até o Barranco Vermelho onde havia rádio, para se comunicar com Pe. Matias, o superior da Missão e com Pe. Iasi, estes que acionaram as autoridades policiais.

Sebastião Moreira com o grupo no Barraco em relato sobre o dia que encontraram Vicente Cañas. Foto: Ivo Schroeder

Da parte da Comitiva em atitude respeitosa nos acomodamos com nossas redes, alguns dentro do barraco e outros numa tenda coberta de lona de imediato levantada pelos indígenas. Tempo bom e sol, banho no rio, os índios saíram para pescaria. Somente ao escurecer eles retornaram, quando nos reunimos ao redor do túmulo, que fora enfeitado pelos índios.

Falas, rezas e cantos. Os presentes se manifestaram, lembrando que fomos iluminados pela ressurreição de Vicente que tombou aqui e virou semente. As sobrinhas lembraram momentos significativos vividos com o tio, ‘sempre o teremos presente em nosso coração, tua valentia e compaixão, tua memória é um farol que nos guia’. 

Cerimônia para Vicente ao lado de seu barraco na Terra Indígena Enawenê-Nawê. Foto: Ivo Schroeder

Na oportunidade, foram sepultados os pertences de Vicente — sua maleta, o rosário (terço), sua faca e seus documentos — juntamente com a calota craniana, que por décadas permaneceu separada, como prova em processo judicial. Os Enawene-Nawe realizaram seus rituais de despedida conforme sua tradição, integrando esse momento ao seu modo próprio de compreender a vida, a morte e a continuidade espiritual, em um gesto que reafirma a memória e mantém viva a ligação entre o passado e o presente. Soube que Kodatenê (chefe de clã) e Wawala (cantador) conduziram a abertura da sepultura, rente à sepultura de Vicente, a recepção e acomodação da maleta com todos os pertences no fundo da cova, sua cobertura com terra, socando-a bem, prostrando-se em seguida para choro ritual e rezas, enquanto a consternação e choro silencioso também se apoderou dos presentes. Alguém transmitiu a mensagem do ‘cacique para nunca mais mexer, ele falou não abrir mais, última vez’.

Sepultamento da calota craniana e dos pertences de Vicente Cañas pelos Enawene-Nawe. Foto: Ivo Schroeder

Mais adiante, em longa fala, o chefe tentou explicar como faz a família aqui, ‘a gente pagar nossa área, comprou colar, caramujo, dente de onça, rede, rabo de gavião, a gente paga, cabaça, igual branco. Enterraram ele mesmo aqui, família paga para outra pessoa’. Enfim, se tratava da tradição de pagamento do enterro. Foi esclarecido que as sobrinhas esqueceram os presentes em Cuiabá e que Fausto lhes entregaria quando retornasse à aldeia.

Concluindo

Resta acentuar que se trata do enterramento definitivo, quando Vicente está completamente com os Enawene que o acolheram, que ele é seu parente, faz parte da sua história, que seu espirito descansa em paz e ninguém mais vai mexer com ele. A mesma mensagem passou a família de sangue, as sobrinhas presentes, consumou-se um ciclo, momento de tranquilizar o espírito. 

Dom Neri, bispo de Juína, disse que precisa ouvir, ‘eu tenho a dizer que vou fazer o dever de casa, Vicente é um patrimônio espiritual, ele tombou pela causa indígena. O Brasil precisa, dentro da Amazônia e por respeito aos povos, que ainda temos muito para dar. Vicente foi decisivo no momento certo.  O bispo avaliou ainda que o primeiro milagre o Vicente mostrou a verdade, a reviravolta (nos Autos) foi o primeiro milagre, captamos esta mensagem …

* Ivo Schroeder atuou desde 1972 junto à coordenação OPAN/CIMI em Porto Alegre. Em 1976 compôs o secretariado do CIMI-DF, em 1979 o projeto na Diocese de Corumbá com os povos Terena e Kadiweu. Fez parte do CIMI-Sul em 1983 e em 1988 retornou à coordenação da OPAN. Em 1993 fez na UFMT sobre trabalho da OPAN com os Parintintin e esteve na presidência da instituição. Em 2001 fez doutorado sobre o povo Xerente, na USP. Entre 2006 e 2011 retomou o trabalho junto à coordenação da OPAN e de 2012 a 2014 esteve à frente do Serviço de Regularização de Comunidades Quilombolas no INCRA/MT.