Encontros em Manaus fortalecem rede do manejo sustentável do pirarucu
Representantes comunitários, organizações da sociedade civil e instituições governamentais debateram conquistas, desafios e caminhos para ampliar políticas públicas voltadas ao manejo
Por Talita Oliveira | OPAN
Entre os dias 4 e 8 de maio, Manaus (AM) sediou uma intensa agenda de reuniões e articulações voltadas ao fortalecimento do manejo sustentável do pirarucu. Os encontros reuniram representantes de associações comunitárias, organizações da sociedade civil e órgãos públicos para debater avanços, desafios e perspectivas da atividade, reconhecida pelos impactos positivos na geração de renda, na conservação ambiental e no fortalecimento das organizações de base.
Articulada pelo Coletivo do Pirarucu — rede que reúne cerca de 2.500 famílias manejadoras no Amazonas — a programação teve como foco a consolidação de políticas públicas estratégicas para o setor, como o Programa Arapaima e o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) do Pirarucu. A agenda também incluiu debates sobre os resultados do manejo em 2025 e os caminhos para fortalecer a atividade nos territórios.
Nesse contexto, a participação contínua das lideranças comunitárias em espaços de articulação e incidência política, como os promovidos pelo Coletivo do Pirarucu, tem sido fundamental para fortalecer a atividade e ampliar o reconhecimento das comunidades manejadoras.
Esse processo também conta com o apoio do projeto Raízes do Purus, desenvolvido pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) em parceria com a Petrobras. Há mais de uma década, a iniciativa fortalece a participação de lideranças indígenas em espaços de articulação regionais e nacionais, além de apoiar o manejo sustentável do pirarucu realizado pelos povos Paumari e Deni, que integram o Coletivo do Pirarucu por meio de suas associações representativas.
Conselheira da Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA), Margarida Paumari acompanha as agendas do Coletivo do Pirarucu desde 2022. Para ela, os avanços alcançados refletem anos de mobilização coletiva e persistência das comunidades manejadoras.
“Lembro quando a gente saía das comunidades para acompanhar as reuniões do Coletivo e hoje vejo que tudo aquilo que a gente vinha debatendo se concretizou. Estamos vivendo a realização de um sonho”, afirma.
Reunião do Programa Arapaima
No dia 4 de maio foi realizada a primeira atividade da semana, a reunião do Comitê Técnico Permanente do Programa Arapaima. Composto por 29 membros, entre titulares e suplentes, o comitê reúne servidores do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama), responsável pelo programa, representantes de órgãos públicos, organizações comunitárias, instituições de pesquisa, além de membros do Coletivo do Pirarucu. Sua principal função é assessorar e acompanhar a implementação do programa, fortalecendo o diálogo entre instituições governamentais, organizações comunitárias e entidades parceiras envolvidas no manejo sustentável do pirarucu.
Felipe Rossoni, coordenador do projeto Raízes do Purus e suplente do Coletivo do Pirarucu no comitê técnico, avalia que o espaço tem ampliado o conhecimento dos servidores do Ibama sobre a potência da atividade do manejo para além da pesca, especialmente no que diz respeito à estrutura de proteção e vigilância territorial de base, reduzindo a distância entre as decisões tomadas em Brasília e a realidade dos territórios.

“Temos agora um reconhecimento mais estruturado e essa experiência pode servir de modelo para que os sistemas de gestão das Áreas Protegidas (Terras Indígenas e Unidades de Conservação) e os Acordos de Pesca incorporem conhecimentos gerados e implementados nos territórios, utilizando-os na gestão dessas áreas. Trata-se de um grande ponto de conexão de informações úteis e estratégicas para o Estado brasileiro absorver e internalizar”, afirma Felipe.
16ª Reunião do Coletivo do Pirarucu
Nos dias 5 e 6 de maio, o Coletivo do Pirarucu realizou sua 16ª reunião, reunindo cerca de 100 participantes, representantes de 44 organizações, entre associações comunitárias, instituições governamentais, organizações não governamentais e pesquisadores convidados. O encontro foi marcado pela apresentação dos avanços recentes e das conquistas coletivas alcançadas pelo grupo, como o lançamento do PSA do Pirarucu, a publicação da Portaria Interministerial MAPA/MMA/MPA nº 41 e a implementação do Programa Arapaima. Também foram celebradas as homenagens do 3º Prêmio Mulheres das Águas a Ana Paula Paumari, presidenta da AIPA, premiada na categoria Pesca ou Aquicultura Indígena, e Fernanda Moraes, premiada na categoria Pesca Artesanal Continental, ambas manejadoras que integram o Coletivo.

“Quando vemos uma conquista coletiva ganhando destaque, especialmente protagonizada pelas mulheres, é muito emocionante. Esse é um sonho das mulheres manejadoras. Representar aquelas que estão na base, na luta diária, é muito gratificante, porque esse reconhecimento existe graças a elas e a todos que atuam nos territórios”, expressou Ana Paula Lima ao relembrar a premiação.
A programação seguiu com o compartilhamento dos resultados da pesca de 2025, conduzido pelas associações comunitárias e pelo Ibama, promovendo um espaço de troca sobre os desafios e avanços do manejo sustentável do pirarucu. O encontro também contou com debates sobre políticas públicas relacionadas ao manejo, além da apresentação de projetos voltados a possíveis colaborações com o grupo.
Oficina PSA do Pirarucu
Encerrando a programação da semana, nos dias 7 e 8 de maio foi realizada a Oficina do Programa de Pagamento por Serviços Ambientais da Sociobiodiversidade para o Manejo Comunitário Sustentável do Pirarucu (PSA Pirarucu), promovida pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio da Secretaria Nacional de Bioeconomia, reunindo mais de 180 participantes. A atividade teve como principal objetivo apresentar a Chamada Pública MMA/CONAB nº 01/2026, além de orientar e apoiar as comunidades no processo de habilitação e cadastramento no programa. O espaço também foi marcado por reflexões sobre a trajetória de construção do PSA do Pirarucu e a mobilização coletiva que possibilitou sua criação.
“Vejo que cada vez há mais coletividade e parcerias, o que fortalece ainda mais nosso trabalho. Achei muito bom ver os avanços ao longo dos anos, resultado do esforço junto com instituições como o Ibama, ICMBio e outras entidades, além das organizações locais, como a Aspodex”, avalia Pha’avi Hava Deni, presidente da Associação do Povo Deni do Xeruã (Aspodex).

Reforçando o caráter coletivo da iniciativa, Bruna De Vita, diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia da Secretaria Nacional de Bioeconomia do MMA, destacou a importância histórica do momento e o protagonismo dos manejadores na consolidação do programa.
“Estamos implementando uma iniciativa muito inovadora, mas que já vem sendo discutida pelos manejadores há muito tempo. O nosso sonho começa com o PSA para o pirarucu, mas segue com o desejo de que o programa se estenda para outras cadeias da sociobiodiversidade”, finaliza.