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Identidade Nambiquara

Por: Keka Werneck/OPAN
Ritual da menina-moa refora valores culturais milenares.

Recluso tempo de aprender valores para a vida da mulher
Foto de Thiago Foresti/OPAN

Sapezal, MT - Seis adolescentes Nambiquara, de 11 a 14 anos, acabaram de cumprir o ritual da menina-moça, que este povo repete através de muitas gerações, preparando as jovens para a vida adulta. Elas são da aldeia Três Jacus, na Terra Indígena Tirecatinga. O ritual reuniu na aldeia mais de 230 indígenas Nambiquara, Paresi, Myky, Manoki e Enawene Nawe, de Sapezal, Comodoro, Brasnorte e Juína.

Este ritual tem como principal objetivo marcar o rito de passagem nessa fase da vida das meninas, para que jamais se esqueçam quem são e a que povo pertencem, mantendo viva a cultura Nambiquara.

“O pessoal todo da nossa e de outras etnias ficou muito contente. A gente, junto com a OPAN, fez essa festa bonita, que é muito importante para nós. Essas meninas não vão esquecer mais nunca desse momento”, assegura o cacique da aldeia Três Jacu, Ari Wakalitesu. “Não podemos perder essa tradição, porque a continuidade desse ritual é a continuidade do nosso povo. Agora todo mundo volta para casa e vai erguer a cabeça, contar para a família que a festa foi bonita, que todo mundo comeu, todo mundo dançou, todo mundo cantou, tudo alegre”.

Conforme descrição da antropóloga Anna Maria Ribeiro no Plano de Gestão Territorial da TI Pirineus de Souza, o termo Nambiquara, emprestado do tupi-guarani, significa orelha furada. É uma designação geral para nomear um conjunto de mais de 30 subgrupos, ligados pela filiação linguística, mas que se distinguem entre si por determinados aspectos da organização social, cultura material e sistema de crenças. No caso da festa da menina-moça, todos os sub-grupos Nambiquara são adeptos.

O ritual exige esforços e envolvimento de toda a comunidade. São vários meses de organização, inclusive para receber os parentes de outras comunidades que são convidados a participar. Para a festa na aldeia Três Jacu, não faltou alimento. As cozinheiras prepararam 31 emas, seis antas e quatro veados, muito beiju e pescado, além de chicha de mandioca e banana, servidas durante o ritual, para manter a energia na roda de canto e dança durante toda a madrugada.

 

A transição

Tudo começa por ocasião da primeira menstruação das adolescentes. É hora de, novamente, realizar o ritual da menina-moça. Em uma reunião comunitária, convocada pelo cacique e os pais das meninas, todos decidem como serão os preparativos para a festa.

As mulheres buscam palha de guariroba para construir uma pequena oca no pátio da aldeia, onde as adolescentes ficam reclusas por pelo menos dois meses. Levadas pelos anciãos, entram na casinha e só saem no último dia da festa. Isso, na crença Nambiquara, evita que as jovens adoeçam agora ou em qualquer momento da vida. Dentro da oca, recebem orientações das mães e outras mulheres mais velhas sobre como se comportar como mulher. Os homens não entram. “A gente come e toma banho aqui dentro e escuta as conversas”, explicou uma das meninas-moças, Melissa, de 12 anos.

Aida Nambiquara, de 15 anos, da aldeia Auxiliadora, em Comodoro, passou pelo ritual quando também tinha 12 anos. Ela ficou três meses reclusa. “Se você não ficar lá, fica doente, com dor de cabeça, desmaia. Então tem que ficar na oca, mas é difícil. O bom é o movimento e a alegria no dia da festa, vem muita gente”, comenta.

Depois que a moça Nambiquara passa pelo ritual, já pode se casar. Com a filha no colo, Elizete Negarote, de 16 anos, da aldeia Caititu, conta que ficou seis meses reclusa e, depois que saiu, casou, com um noivo que o pai dela escolheu. Mas nem sempre é preciso fazer isso. Raysa Patrícia, de 16 anos, da aldeia Novo Encantado, não casou. Ela ainda quer estudar, quem sabe até fazer faculdade, mas nunca gostaria de se mudar da aldeia nambiquara.

No dia da festa, as meninas-moças são enfeitadas para saírem da reclusão bem bonitas. “As mães forram o chão com um pano, dão banho, lavam os cabelos. Depois passam urucum no corpo delas. Passam jenipapo, que é uma fruta do mato. Pintam o rosto. Quando elas estão prontas, penteiam o cabelo e cortam a franja. Pedem para se olharem no espelho”, conta Raysa. O cocar na cabeça tem flores feitas de penas coloridas, e os colares transpassados no peito são feitos de tucum e outras sementes..

Ao entardecer, um padrinho, escolhido pelo pai da moça, abre uma parte da oca, dá a mão a ela e a tira para dançar. De cabeça baixa, a moça sai da casinha e entra na roda, formada por homens e mulheres, que cantam e dançam, alegremente, de mãos dadas, até o amanhecer, por mais de 10 horas seguidas, sem parar. Durante todo esse tempo, elas não podem levantar a cabeça. Os cânticos geralmente são desafios entre grupos, o que gera um clima de muita alegria, risos e gritos indígenas. Os jovens se divertem e os mais velhos dão o exemplo de resistência.

Quando surgem os primeiros raios de sol, os caciques e pajés colocam pedaços de beijus e peixe nas mãos das meninas-moças, como oferenda. Elas vão para o centro da roda e ficam ajoelhadas no chão. Este é um momento emocionante do ritual, quando o pajé autoriza que levantem o olhar, para ver a vida, para ver o sol, um novo ciclo que se inicia.

Os Nambiquara sempre colocam entre as meninas-moças uma mais nova, para enganar os espíritos ruins. Essas devem voltar a passar pelo mesmo ritual, depois de menstruarem. Quem participou, desta vez, nesta condição, foi Jadilene, de 11 anos. A mãe dela, Agda Nambiquara, de 37 anos, disse que, nesses dois meses de retiro, toda hora ia lá conversar com elas, pedir para ficarem quietas. “Antigamente não podia fazer barulho nenhum. Quando eu fiquei presa, minha avó que cuidava de mim. Então, essa é hora de ter consciência. E agora as meninas merecem uma festa grande, festejar a idade que têm, esse momento importante. Essas crianças um dia crescem e vão aprendendo a ser como nós. Quando os velhos morrerem, elas é que vão continuar tudo”.

Maracanã é um Nambiquara de mais de 70 anos. Ele explica que “tudo isso é muito importante para mostrar aos jovens que nosso povo tem tradição”. O temor dele é que, por conta da cultura indígena estar sofrendo muita discriminação, os jovens possam abandonar suas tradições.

Com o celular na mão, Marli Manduca, de 17 anos, afirma que é uma Nambiquara de corpo e alma e que o ritual da menina-moça foi muito importante. Ela ficou reclusa duas vezes, na primeira com 11 anos e aos 13, quando menstruou. No celular, ouve sertanejo, mas também muitas músicas que são cantadas na roda do ritual, os instrumentos sagrados, e som de pajelança, que é uma espécie de reza. Ela também vê vídeos das demais tradições indígenas.

Segundo a coordenadora técnica da OPAN, Lola Campos Rebollar, a continuidade desse ritual fortalece a cultura Nambiquara. “Sabemos que há muitas preocupações, as hidrelétricas, o agronegócio, por isso é importante a gente se unir, porque juntos é possível resistir a essas ofensivas. A festa da menina-moça tem grande importância porque um dia os velhos não vão mais estar aqui e os jovens vão manter o povo Nambiquara vivo”.

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