Apurinã

Tradicionalmente migrantes, os Apurinã são falantes do tronco linguístico Aruak-Maipure. Atualmente seu território se estende do Baixo rio Purus, próximo à foz em que se localizam os municípios de Tapauá, Anori e Beruri, passando pelo Médio Purus, onde estão Boca do Acre, Pauini, Lábrea, Canutama (AM). Habitam 29 terras indígenas.

O ciclo da borracha, iniciado no final do século XIX, incentivou a colonização de não indígenas, trazendo muitos impactos à forma de viver dos Apurinã e demais etnias. Encurralados pelos caucheiros peruanos pelo oeste e pelos seringueiros oriundos do Nordeste, as populações indígenas locais sofreram um franco processo de extermínio.

Ao serem incorporados a este sistema de extração, os povos originais do Médio Purus foram inseridos no sistema de aviamento, no qual o débito e o crédito estruturam as transações comerciais entre patrões e empregados, gerando forte dependência econômica para os últimos. Após um intervalo, o ciclo da borracha foi retomado na década de 1940 devido à demanda de borracha das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No entanto, após o início da estruturação do cultivo de seringueiras no Sudeste Asiático, patrões decretaram falência e esta produção entrou em declínio, dando espaço a outras atividades extrativistas, destacando-se o óleo de copaíba e a extração de madeiras nobres.

No que tange especificamente ao povo Apurinã, houve diversas participações deles no ciclo dos seringais: grupos inteiros foram assassinados, alguns chegaram a vender seus produtos assim como outros trabalharam como seringueiros. Os sobreviventes relatam massacres, torturas, escravidão e batalhas e guerras pela terra. No entanto, outros indígenas tiveram contato com não índios somente na época da Grande Guerra, quando se estima que mais de 50 mil nordestinos deslocaram-se para a região, denominados, por sua vez, de “soldados da borracha.”

Hoje, o sul do Amazonas ainda possui extensas áreas florestadas, com aproximadamente quatro milhões de hectares de terras indígenas e unidades de conservação, mas tem sofrido com o avanço das frentes de desmatamento para expansão de atividades agropecuárias vindas de Rondônia e Mato Grosso. Políticas nacionais de infraestrutura e de integração continental implementadas desde a década de 1970, em pleno regime militar, vêm buscando facilitar o escoamento da produção agropecuária por meio da construção de estradas vicinais e rodovias que, por sua vez, têm se tornado grandes vetores de desmatamento, ameaçando a integridade dos recursos naturais à qualidade de vida das populações indígenas e ribeirinhas.

Breve histórico de atuação da OPAN

Com atuação junto ao povo Apurinã desde os anos 80, a OPAN retomou mais fortemente sua intervenção no sul do Amazonas em 2009 e, desde então, vem se reaproximando do povo Apurinã. Hoje atua diretamente com o povo Apurinã da TI Caititu, situada entre o perímetro urbano de Lábrea, a Reserva Extrativista do Ituxi, o Parque Nacional Mapinguari e a TI Jacareúba/Katawixi (índios isolados). A área foi demarcada e homologada em 1991.

Lá vivem cerca de 800 pessoas, distribuídas em 22 aldeias. Indígenas do povo Paumari também habitam este território, cuja extensão é de 365 mil hectares, cortados pelos rios Puciari (afluente do rio Ituxi), além do Paciá e Mari (afluentes do rio Purus). Boa parte de suas aldeias está localizada ao norte da terra, próximo à cidade de Lábrea, o que lhes acarreta escassez de caça, peixes e frutos. A partir de 2011, atividades específicas da intervenção indigenista da OPAN foram retomadas junto aos Apurinã com o “Projeto Conservação da Biodiversidade em Terras Públicas na Amazônia”, conduzido por um consórcio formado por Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Conservação Estratégica (CSF Brasil), Equipe de Conservação da Amazônia (ECAM), Associação do Povo Suruí (Metareilá), Kanindé e OPAN, e financiado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid).

Atualmente, os indígenas estão empenhados em desenvolver atividades econômicas como a produção de farinha e a coleta e beneficiamento de castanha-do-brasil e, no fim de 2013, começaram a implantar Sistemas Agroflorestais (SAF) já como parte do “Projeto Raízes do Purus”, patrocinado pela Petrobras através do Programa Petrobras Ambiental.

Deste modo, fomentamos hoje a gestão territorial visando o desenvolvimento de uma economia florestal baseada no manejo sustentável da castanha-do-brasil e no aprimoramento de toda a sua cadeia de produção, assim como na implementação de sistemas agroflorestais em áreas degradadas. A discussão sobre a gestão territorial da TI Caititu começou de forma delicada, tamanho o desafio de integrar tantas aldeias e diferentes realidades.

Neste processo, os indígenas decidiram se apropriar e conhecer melhor seu extenso território. Em maio de 2013, foi realizada uma grande expedição ao limite sul da TI ao longo do rio Puciari. Principalmente os Apurinã moradores das aldeias mais próximas à cidade de Lábrea, que enfrentam a escassez de alimentos, ficaram admirados com a fartura de caça, peixe e castanhais não explorados.

A partir de então, iniciou-se uma mobilização entre eles para voltar a explorar de maneira sustentável os recursos dessa região. Na Assembleia Apurinã, que ocorreu logo em seguida, surgiu uma proposta de proibição de exploração ilegal na região do rio Puciari, iniciando os debates que culminaram na elaboração do etnomapeamento da TI Caititu.

Os Apurinã e Paumari conseguiram reunir representantes da maioria das aldeias e validaram todo conteúdo do mapa, avançando na discussão sobre gestão territorial, o que culminou com a elaboração do “Diagnóstico da Terra Indígena Caititu”, o qual servirá de base para a elaboração do Plano de Gestão da TI Caititu, a ser desenvolvido pela Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp), por meio da seleção pública do PDPI-MMA/2013.

O projeto “Raízes do Purus”inclui ainda intercâmbios de experiências, como o que aconteceu  na TI Kampa do Rio Amônia, do povo Ashaninka, o que motivou os Apurinã a recuperarem, com técnicas semelhantes, parte de seu território. Em parceria com a Conservação Estratégica (CSF Brasil), durante o projeto “Conservação da Biodiversidade em Terras Públicas na Amazônia”, os Apurinã participaram do monitoramento econômico da produção de castanha nas aldeias Japiim e São Domingos. O projeto tem ajudado também a incrementar a infraestrutura de produção nas aldeias e a realização de oficinas de boas práticas.