Deni

O povo indígena Deni vive em uma grande extensão na região entre os rios Juruá e Purus, no Amazonas. Como outros grupos, a partir dos anos 40 eles sofreram pressões de seringalistas para exploração de borracha, sendo vitimas de doenças, violências de toda a sorte e exploração de mão-de-obra indígena. Apesar de protegidas pela dificuldade de acesso, as terras do povo Deni, com cerca de 1,53 milhões de hectares, ainda são frequentadas por pescadores que desrespeitam seus limites territoriais, conquistados plenamente apenas em 2003 após uma campanha em que a OPAN esteve envolvida.

Em 1996, a madeireira WTK e sua subsidiária brasileira Amaplac compraram 313 mil hectares na região, sendo quase a metade incrustada no território Deni. Para se antecipar à sua instalação na região do alto rio Cuniuá, a OPAN, o Greenpeace e o CIMI-Norte I propuseram iniciativas para favorecer a participação ativa do povo Deni no processo de demarcação e defesa de suas terras. Ao lado das ações relacionadas à demarcação, um diagnóstico preliminar identificou alternativas para fazer frente à dependência futura do empreendimento madeireiro e a espoliação dos recursos naturais nas terras indígenas.

A demarcação Deni faz parte de um longo processo, iniciado com a primeira identificação da terra indígena (TI) realizada no ano de 1984. De lá para cá, a floresta tem sido explorada de várias formas insustentáveis – como, por exemplo, a exploração de madeiras como o pau-rosa, a copaíba, e a pesca predatória. Em muitos casos, os índios eram aliciados, sendo que a moeda de troca era constituída por produtos superfaturados.

O Greenpeace se envolveu com a demarcação Deni em 1999, durante investigação da compra de 313 mil hectares de floresta pela gigante madeireira malaia WTK, que pretendia explorar madeira para a produção de compensados destinados à exportação. Durante a investigação de campo, a ONG descobriu que boa parte das terras compradas pela WTK se sobrepunha ao território Deni – eram, na verdade, terra indígena, que não poderia ser negociada.

Os líderes Deni aguardavam desde 1985 a demarcação de sua terra e já tinham perdido a crença em soluções oficiais. Alertados sobre a invasão de seu território, eles pediram ajuda ao Greenpeace para proteger suas terras. A primeira tentativa foi acompanhar o trâmite do processo de identificação para que os prazos fossem cumpridos e a demarcação realizada até 2001. O não-cumprimento dos prazos e acordos fez com que os Deni decidissem realizar eles mesmos a demarcação.

A partir da determinação dos Deni, Greenpeace convidou as organizações indigenistas CIMI, OPAN e as organizações indígenas COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e UNI-Tefé (União das Nações Indígenas de Tefé) para, juntos, formular um projeto que capacitasse os próprios Deni a delimitar os limites tradicionais de sua terra e, assim, comandarem o processo demarcatório. Em 2001, uma equipe multidisciplinar trabalhou durante seis meses diretamente com líderes de todas as oito aldeias Deni. Eles aprenderam a manusear instrumentos como teodolitos, bússolas e GPS (equipamento de posicionamento por satélite), e adquiriram uma ideia muito clara das fronteiras de sua terra. O território Deni foi demarcado em 2003.

De 2009 a 2011, a OPAN trabalhou com os Deni no âmbito do Projeto Aldeias, que se desenvolveu em 7 terras indígenas do estado do Amazonas, nas bacias dos rios Purus, Juruá e Jutaí através do consórcio OPAN-Visão Mundial com apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). Os dois objetivos principais do programa foram o apoio à conservação da biodiversidade e ao manejo de recursos naturais nas terras indígenas Katukina do Biá, Deni do rio Xeruã, Paumari do rio Cuniuá, Paumari do Lago Paricá e Paumari do Lago Manissuã; além do fortalecimento das organizações indígenas locais e regionais. Houve também uma componente em parceria com a Coordenação de Índios Isolados e de Recente Contato (FUNAI/CGIIRC), de proteção etnoambiental dos povos indígenas Hi Merimã e Suruaha, no marco da Frente Purus de Proteção Etno-ambiental.

Como resultado deste trabalho, os Deni do rio Xeruã publicaram seu Plano de Gestão Territorial em setembro de 2011 em um grande evento na cidade de Carauari.