Cercados pelo fogo

Populações indígenas sofrem as consequências dos incêndios no entorno e até mesmo dentro de suas terras.

Cuiabá (MT) – Protegidas por práticas sustentáveis de gestão territorial, as terras indígenas contribuem para a conservação de um quarto das áreas de floresta, Pantanal e Cerrado em Mato Grosso. Apesar disso, sofrem diariamente a pressão do entorno por conta de atividades agropecuárias e obras de infraestrutura. Com o desmonte dos órgãos ambientais e da política socioambiental do país, acentuada no governo de Bolsonaro, os indígenas se tornam cada vez mais vulneráveis a ações criminosas que afetam suas terras. Neste momento, são vítimas de uma corrida incendiária pelo desmatamento.

“A fumaça está imensa. Você não consegue respirar o ar puro”, conta o indígena Juarez Paimy, do povo Rikbaktsa. A Terra Indígena (TI) Erikpatsa, onde mora, é contornada a norte, sul, leste e oeste por áreas desmatadas. “Como é tudo pastagem, os vizinhos agropecuaristas estão colocando fogo com vontade”, disse. Vendo as queimadas tão perto, os Rikbaktsa estão com medo do fogo entrar em sua terra. Por isso, os indígenas estão vigiando o limite leste, onde há diversos focos.

TI Erikpatsa. Foto: Rinaldo Arruda

Além do risco do próprio território, os Rikbaktsa se preocupam com outra área de seu povo, a TI Escondido. Pela proximidade com Colniza, município que está entre os 10 que lideram desmatamento na Amazônia, sentem que o fogo pode chegar a qualquer momento. Naquela cidade, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) contabilizou 1276 focos de calor em agosto, até o dia 26. Em 2018 eram 194 no mesmo período, quando já tinha o maior índice do estado.

Na TI Manoki, que aguarda a homologação desde 2008, invasores atearam fogo propositalmente este fim de semana. “Enquanto a gente está preservando, tem os outros destruindo. Eles tiram madeira, tacam fogo, e plantam capim”, disse Marta Tipuici. Ela contou que estavam acionando o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para solucionar o problema e que pretendiam voltar na área da queimada, mas se sentem ameaçados: “Hoje foram bastante grosseiros, ficavam dizendo que a terra não é nossa”.

Para a coordenadora do Programa de Direitos Indígenas da Operação Amazônia Nativa (OPAN), Andreia Fanzeres, o que está acontecendo com a queimada em torno das terras indígenas segue a lógica do avanço do desmatamento na Amazônia sobre áreas protegidas, só que agora os infratores se sentem autorizados pelo governo para intensificar essas práticas. “É uma situação de banditismo generalizado, de falta de governança. Quando os órgãos de fiscalização ambiental, que têm mais expertise para prevenir e combater os crimes, são impedidos de trabalhar e de se posicionar, confiar só na intervenção pontual dos militares não é suficiente e não trará resultados no longo prazo para a Amazônia”, explica.

Vídeo produzido por Giovane Tapura sobre a queimada provocada na TI Manoki

Falta de equipamento

Neste mês de agosto, em comparação ao ano passado, há muito mais focos de calor nas terras indígenas de todo o país. Eles aumentaram 84% de janeiro a agosto de 2019 se comparadas com o mesmo período do ano passado. Nas terras indígenas de Mato Grosso foram 461 focos em agosto de 2018 e 1143 neste mês.

Na TI Tirecatinga, em uma área de Cerrado, uma queimada começou provavelmente por acidente, segundo o relato dos indígenas. E, facilmente, a situação pode sair de controle. “Não sei como poderia fazer pra gente ter equipamento”, diz Cleide Terena, explicando que eles não dispõem de abafador e outros materiais para combater as chamas.

Cleide contou que antes não ocorriam queimadas e que isso pode estar vinculado ao descuido das pessoas e ao aquecimento global. “Eu não tenho como falar, mas acho que é responsabilidade das próprias pessoas. O clima está mudando”. Além disso, ela disse que quando chove – curiosamente caiu uma chuva semana passada – há mais raios, o que também pode estar ocasionando um aumento nas queimadas.

Os incêndios de Tirecatinga têm preocupado os indígenas porque, entre outros fatores, prejudicam os animais e a vegetação e impactam diretamente na vida deles. “Agora é época das frutas e dos bichos terem filhotes”, contou ela, destacando o risco de queima das árvores de pequi que, além de usarem pro consumo, é comercializado para complementação da renda dos indígenas.

TI Tirecatinga. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Queima controlada

A TI Paresi também figura entre as que tiveram aumento no número de queimadas de acordo com os dados do INPE. Genilson André Kezomae observa que isso pode estar acontecendo pela falta de conscientização de algumas pessoas. “A queimada não acontece do nada, sempre tem um vetor”, destaca. Segundo ele, o Cerrado é um bioma fácil de queimar, principalmente com acúmulo de material seco de um ano para outro.

Apesar de ainda ser necessário alguns avanços, Genilson contou que as queimadas têm sido controladas na TI Paresi por conta do manejo de fogo que estão fazendo a partir da união da sabedoria tradicional com o conhecimento técnico dos servidores do Ibama. Nesse trabalho são feitas queimas controladas em determinadas áreas a partir de estudos e do desenho estratégico de riscos do fogo visando diminuir a massa acumulada, o combustível de possíveis incêndios.

O coordenador geral da OPAN, Ivar Busatto, destacou que a prática de manejar o fogo é realizada tradicionalmente por diversos povos indígenas. “Na verdade, dentro das terras indígenas há maior controle do que fora”, afirma ele. Isso não ocorre quando a mata natural tiver sido substituída por capim, como é o caso da TI Marãiwatsédé, do povo Xavante, bem mais vulnerável já que foi desmatada por não indígenas.

Ivar Busatto destacou o avanço da política de controle de queimadas dos últimos 10 ou 15 anos em terras indígenas, lamentando que o processo esteja paralisado em muitas delas: “O problema é quando o governo retira essa força, esse recurso, quando tem poucas condições de fazer com que essas políticas continuem acontecendo”, conclui.

Contatos com a imprensa

Dafne Spolti

Operação Amazônia Nativa (OPAN)

(65) 3322-2980 / (65) 9 9223-2494

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