Um banquete na floresta

Viagem de chefs da cozinha carioca às terras Paumari vira momento de celebração pelo manejo sustentável de pirarucu.

Paumari, chefs e organizações parceiras. Foto: Marizilda Cruppe.

Lábrea (AM) – Subindo o rio Tapauá, no sul do Amazonas, nove chefs da cozinha carioca, um chef manauara, imprensa e um conjunto de organizações governamentais e não governamentais navegaram rumo ao território indígena Paumari. Entender por que os Paumari se tornaram referência nacional quando se fala em manejo sustentável de pirarucu valeu cada uma das 30 horas de viagem de barco. O intercâmbio gastronômico apoiado pelo projeto Gosto da Amazônia* e pelo Raízes do Purus, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, visou contribuir com ações de valorização do pescado no mercado do Rio de Janeiro a partir do conhecimento da realidade local. Mais do que isso, porém, a atividade foi um marco das conquistas do povo Paumari a partir do manejo, uma celebração à qualidade de vida e à visibilidade alcançada.

“Parece que a gente está sonhando neste momento”, disse aos presentes Deusilene Paumari, coordenadora geral da recém criada Associação Indígena do Povo das Águas (AIPA). Os Paumari fizeram questão de enfeitar a aldeia Patauá com corações feitos de folha de palmeira, muitos bancos e uma mesa de nove metros que já servia comida aos visitantes na chegada. Mas eram eles, os Paumari, as grandes estrelas. “A gente jamais imaginou ter um chef de cozinha vendo nossa palestra”, disse Germano Paumari, coordenador financeiro da AIPA.

Germano Paumari, um dos primeiros a apostar no manejo. Foto: Antonio Miranda Neto/OPAN

O manejo de pirarucu dos Paumari é realizado há uma década. Ele quebra um ciclo de pelo menos 150 anos de exploração, que vem dos períodos da busca pelas “drogas do sertão” e pela borracha. Os Paumari foram um dos primeiros não só a estabelecer relação, mas a trabalhar junto com os chamados “patrões”, como explicou o antropólogo João Dal Poz Neto, diretor-secretário da Operação Amazônia Nativa (OPAN). Durante anos, eles estiveram submetidos, como outros povos, à lógica do aviamento, um regime de crédito e débito que configura a realidade geográfica, administrativa e socioeconômica da Amazônia.

Neste sistema, os indígenas Paumari pescavam pirarucu sem controle, se escondendo dos órgãos ambientais, e entregavam o pescado recebendo baixíssimas remunerações, de três a sete reais pelo quilo do peixe seco. “Você pesca devendo inflamável, rancho, sal e no final da pesca a gente ainda ficava devendo o patrão. Aí ia pra castanha [coleta e venda] e já saía devendo também”, explicou Eugênio Paumari.

Para quebrar essa lógica, seguindo os preceitos do manejo de pirarucu**, os indígenas deixaram de pescar para venda durante cinco anos, fortaleceram a vigilância territorial e passaram a impedir a entrada de barcos pesqueiros. Com isso, a quantidade de pirarucus passou de centenas para milhares de peixes nas terras Paumari. Além disso, o rio Tapauá ficou novamente cheio de jaraqui, matrinxã, pacu, tracajá e outras espécies. “A gente ficava pensando. Será que um dia volta o que era antes? E hoje voltou”, destaca o Nilzo Paumari.

Pesca do povo Paumari. Foto: Adriano Gambarini/OPAN

Os avanços são resultado também de processos anteriores como a demarcação da terra, a elaboração do plano de gestão territorial e do estabelecimento de acordos internos. “Me lembro em 2010 quando vi seu Germano apresentando o Plano de Vida deles. Tiveram a humildade de pedir ajuda e hoje a gente pode contemplar a conquista deles”, recorda a chefe da Coordenação Técnica Local (CTL) da Funai em Canutama, Ana Maria Camilo da Silva. Para os Paumari, as parcerias foram fundamentais ao longo desses anos. “Se antes nós não tivéssemos tido confiança dos que nos apoiaram, ninguém estaria aqui. Talvez nem soubessem da nossa história”, disse João Paumari, referindo-se a indigenistas da OPAN que contribuíram em diferentes períodos.

Nesse percurso, é preciso mencionar a construção das metodologias para o manejo de pirarucu, iniciado no ano de 1999 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, com apoio do Instituto Mamirauá. No começo das discussões no rio Tapauá, os indígenas foram até a RDS e, assim, acreditaram ainda mais que o manejo poderia dar certo. “Eu queria muito que o pessoal da comunidade São Raimundo estivesse aqui pra escutar o que vocês têm pra falar. Porque começou lá e talvez eles não tenham ideia do resultado”, disse, emocionada, a coordenadora de manejo de pesca do Instituto, Ana Cláudia Torres.

Um cotidiano diferente, com alta gastronomia

Os dias que se seguiram foram de intensas atividades como idas ao roçado, acompanhamento do pré-beneficiamento do peixe e participação do cotidiano da aldeia. Os Paumari fizeram uma dança que não apresentavam há tempos. Além disso, presentearam os participantes com adornos tradicionais. “O povo Paumari é muito legal, mas não costuma dar presente pra qualquer um. Isso é só um detalhe pra mostrar pra vocês que este encontro teve uma importância grande”, observou o indigenista da OPAN, Magno de Lima dos Santos.

Adria Paumari com pinturas para festa. Foto: Marizilda Cruppe.

Mas não foram só os Paumari que se dedicaram ao intercâmbio. Os visitantes estavam envolvidos, buscando aprender e contribuir com o que podiam. “Todos atuaram de forma bastante comprometida”, disse um dos responsáveis pela atividade, João da Mata, coordenador de produção e uso sustentável do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). E chegou a hora de os chefs mostrarem seu trabalho. Uma arte.

Com os cortes do peixe preparados no dia anterior, se uniram para fazer um grande banquete com diferentes aromas e temperos. Felizes com a diversidade e a qualidade dos ingredientes da região amazônica, os chefes começaram a cozinhar as 6h30 da manhã. As mulheres Paumari também se dedicavam ao preparo de deliciosos pratos tradicionais.

Por volta de meio dia, a mesa foi montada. Ao lado de pratos tradicionais paumari, os chefs serviram diversas receitas autorais com o pirarucu. Teve arroz picante, assado do peixe com palmito, cará e macaxeira, moqueca, farofa com castanhas e uva-passa, tiradito (preparado com peixe cru) e até brigadeiro de cumaru na escama do pirarucu.

Chefs servem paumari e visitantes. Na sequência, alguns dos pratos do banquete. Fotos: Dafne Spolti/OPAN.

Depois dessa inesquecível vivência, muitos dos participantes comentaram a transformação que sentiram ao ir pra um local tão diferente da cidade em que vivem, com outros tempos e valores. Logo os chefs se reuniram para combinar atividades de divulgação do pirarucu em seus restaurantes, eventos e feiras. “Estou indo com o compromisso de celebrar a origem desse produto”, comentou a chef Andressa Cabral. Atualmente, no Rio de Janeiro é possível acessar o pirarucu manejado pelos Paumari e por outras comunidades através da empresa Só Peixe, a única que comercializa o produto manejado, adquirido com a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), que vem buscando novos mercados.


Em pé, a partir da esquerda: Andressa Cabral, Fernando Blower, Ricardo Lapeyre, Bianca Barbosa, Frédéric Monnier, Ana Ribeiro, Milton Rôla e Marcelo Barcellos. Sentados, a partir da esquerda: Ana Pedrosa, Maria da Conceição Canto, Nara Rodrigues Ferreira, Teresa Corção, Jessica Trindade e Lucinete Santos de Sousa. Foto Marizilda Cruppe.

Rumo ao Rio Gastronomia

A “viagem dos chefs” foi realizada como estratégias de um grupo que pensa a valorização do manejo de pirarucu, chamado informalmente de coletivo de pirarucu. Compõem este grupo manejadores e unidades de manejo das bacias dos rios Purus, Juruá, Solimões e Negro, associações de base comunitária, organizações socioambientais e agências de apoio.

No final de agosto, de 16 a 18 e de 22 a 25, acontecerá no Rio de Janeiro, resultado do trabalho do coletivo do manejo o maior festival gastronômico do Brasil, o Rio Gastronomia. Chefs, manejadores, organizações socioambientais e os Paumari vão se reencontrar. E, desta vez, não apenas para divulgar suas deliciosas criações à base de pirarucu, mas também para mostrar o valor de um alimento que só pode ser produzido com comunidades fortalecidas e organizadas na Amazônia.

* O projeto Gosto da Amazônia é executado pelo Sindicato dos Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio) e pelo Instituto Maniva por meio da “Parceria pra conservação da biodiversidade na Amazônia”. Esta parceria conta com recursos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), apoio do Serviço Florestal Americano e envolve, no Brasil, a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Institito Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

**Regulamentado pela Instrução Normativa número 001/2005, do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo decreto estadual do Amazonas número 36.083/2015.

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